Memórias Paroquiais

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Crato - Vale do Peso

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1759 Outubro 5 - Vale do Peso
Memória Paroquial de Vale do Peso, Crato
[ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 38, nº 52, pp. 275 a 280]

/p. 276/

N.52

Rmo. Sr.
Vossa Senhoria me detremina lhe responda aoz interrogatorioz, que impressoz me forão
remetidoz por ordem de Vossa Senhoria; e satisfazendo na parte, que metera á sua
continençia, informo a Vossa Senhoria, que esta Aldea do Val do Pezo he situada na
provincia de Alentejo sujeita ao Priorado do Cratto da Ordem, e Milicia da Sagrada
Rilligião [sic] de Malta na comarca de Portalegre termo da Villa do Cratto, freguezia
por si separada da mesma villa, que antigamente se chamava = a cidade do Pezo,
segundo a tradisão vulgar, que nesta freguezia se conserva, tomando o nome de hũa
formoza, e bem paresida pedra, a qual existe junto desta aldea já quebrada, porque em a
sua circumferencia tem a ambisão dilligenciado com profundas cavas encontrar os
trezouroz, que ahi suppoem oz naturaes, que ficarão ócultoz na destruisão da cidade;
porem não consta que se tenhão encontrado, mais, que ruinas de mayor povoasão da que
hoje se conçerva, e se ignora totalmente o tempo da sua antiga existencia, e destruisão.
He donatario desta aldea o Serenissimo Senhor Infante D. Pedro como Gram Prior deste
Priorado do Cratto.
Tem a povoasão cento, e vinte vezinhoz com trezentas, e oitenta pesoas. Está situada
em terra plano [sic], dezempenhando assim o nome de vale, e della se descobre a cidade
de Portalegre em distancia de tres legoas, e o castello da Villa de Marvão na distancia
de quatro legoas.
Houve no lemite desta aldea huã povoasão chamada = Pedo Rodo = em
distançia de quarto de legoa para o Nascente, de que há ainda fresca lembrança, e nas
suas ruinas mostra ter sido de poucoz vezinhos, e noz livroz da igreja ha açentoz de
cazadoz baptizadoz, e defuntos com datas de cem annoz pouco mais, ou menoz a esta
parte, declarando nomes de pesoas, que habitavão nella, de que oz vivoz ainda dão
noticias por seus pays adquiridas; porem haja só =

/p. 276/ só se conserva huâ caza em pe, e muntas paredes de outras junto dellas algumas fazendas cercadas de paredes de
pedra com arvores de figueiras; oliveiras, e sovreiros, sendo a conservasão das dittas
paredes o milhor demonstrativo de ter sido povoado aquelle sitio; porque no termo da
Villa do Cratto, em que oz pastoz sâo comuns a todoz oz gadoz doz seus moradores,
não se permitem similhantes tapadas, senâo em a vizinhança doz povoz para o seu uso
particular.
A parrochia está na ponta da aldea para a parte do Poente e o seu orágo he a
Senhora da Lus: he fabrica de huâ só nave cuja grandeza he munto bastante para oz
moradores da freguezia, reparada a sua cappella mór pello ardentissimo zello do
Serenissimo Senhor Infante Gram Prior actual, que de novo tambem a tem paramentado
de preciozoz ornamentoz para o divino culto: tem seis altares, e no mayor está o
Santissimo Sacramento, e a veneravel imagem da Senhora, que lhe da o nome: noz
coletraes se venera da parte do Evangelho a imagem do Senhor Sâo Pedro, e da parte da
Epistola a imagem de Nossa Senhora do Rozario; segue se mais da parte do Evangelho
hum altar com duas imagens de Sâo Thiago hum de pé, outro de cavalo, e logo por
baixo deste huâ capella com a invocasâo das almas; da parte da Epistola esta mais hum
altar com a invocasâo do Santissimo Nome de Jezus.
Ao parrocho desta freguezia se da o nome de reytor cura, que he aprezentado
pello Serenissimo Senhor Gram Prior: tem de congrua certa anualmente hu moyo de
trigo, vinte e quatro almudes de vinho á bica, meya carga de uvas para tinta

/p. 277/ tinta, e tres mil reis em dinheiro, que tudo lhe manda dar o mesmo Serenissimo Senhor;
e o povo lhe paga tambem outro moyo de trigo anualmente; e nâo tem mais
beneficiadoz, nem coadjutor, nem conventoz, hospital, ou Caza de Mizericordia.
He filial desta parrochia huâ ermida de Santa Eulalia situada fora desta aldea
para a parte do Norte em pequena destancia.
No dia dous de Fevereyro acode a devosâo de muntas pessoas a vizitar Nossa
Senhora da Luz, que se festeja no mesmo dia, e no de Santa Eulalia a doze do mesmo
mês tambem comcorrem muntas pessoaz á sua ermida, sem embargo de menoz pompa,
com que está ornada, ostentando oz romeyroz nesta vizita a sua mayor devosâo com
esta santa; porque de ordinario só vâo procurar o divertimento, que aqui se encontra; no
grande patrocinio da mesma Santa, a quem custumâo empenhar para com Deoz Nosso
Senhor naz queixas de ouvidoz.
Os frutoz desta aldea em mais abundancia he senteyo, e milho, que os seus
moradores cultivâo, por conta daz terras serem de aréas fracas, que nâo permitem a
cultura de trigo, que só fazem em terras de mais sustancia, que sâo aqui as menoz; e
tambem fazem aqui munto excellentes queijoz de ovelhas, a quem parese; que oz pastoz
fazem sua particular distinsão entre oz mais destas vizinhanças, que tambem não
desmerecem o nome de bons; porem de huns, e outroz o seu milhor uso he depois passar
o Verâo por elles, porque o calor oz apura de forma, que oz fáz de gosto especial, e por
arte se lhe introdúz huma cor carmezim, que oz faz agradaveis á vista.
He governada esta aldea pello juis de fora, e camera de Villa do Cratto, que
todoz oz annoz lhe nomeâo hum homem de qualida

/p. 278/ qualidade plebeya para juis chamado da vintena, que tem a jurisdisâo limitada, que a ley lhe faculta; e nâo tem
outra alguma qualidade esta povoasão mais que de aldea do termo do Cratto, como fica
ponderado.
Haverá sesenta annoz faleçeo nesta freguezia Maria Dias Prezada natural da
mesma e se acha sepultada no lugar, em que hoje existe o confissionario, a quem a terra,
e oz annoz nâo tem consumido o seu cadaver, como dizem todoz os naturaes: hera
pessoa conhecida per virtuoza, dotada de excellente caridade para com oz pobres, a
quem favorecia com esmolas correspondentes aoz bens, que possuia, e se exercitava em
outras mais obras de virtude, que a fazem prezumir possuidora da eterna bem
aventurança. Tambem he natural desta freguezia o Doutor Manoel Dias Maninho
presbitero do habito de Sâo Pedro graduado na sagrada theologia em a Universidade de
Coimbra, que foi insigne na sua faculdade, e com piedozo zelo instituio na mesma
freguezia a cappella das almas de que já fis mensâo em seu lugar, faleçeo com
sentimento universal da patria a vinte, e oito de Abril de mil seiscentoz, e oitenta.
Tambem he natural desta freguezia Manoel Dias Delicado, que sahindo da patria
desfavorecido da fortuna, o seu procedimento lhe deu milhoras a esta falta fazendoo
distinto pello seu valor no servisso de Sua Magestade, e exercicio das tropas militares,
em que asentou praça de soldado, e de prezente se acha premiado o seu merecimento
com o posto de cappitâo de cavaloz no regimento de Dragõens da guarnisâo da praça da
Cidade de Evora.
Fica distante esta aldea da sua capital Villa do Cratto huâ legoa, e trinta da
Corte de Lixboa capital do reyno.
No terre

/p. 279/ No terremoto do anno de mil setecentoz, e sincoenta e sinco não
padeçeo esta freguezia ruina concideravel, e só a tiverâo os telhadoz da igreja matris,
que ainda nâo puderâo ter reparo por estar o povo munto pobre.
No lemite desta freguezia não há serra, de que haja de fazer mensâo; nem
tambem rio de nome conhecido, só tem huâ legoa distante da mezma com pequena
corrente, curso quieto por cauza daz planicies, que cortâo as suas agoas do Nascente
para o Poente, aonde cria huâ especie de peixes pequenoz chamadoz =pardelhas= e
alguns bordáloz, que se fazem apetecidoz pella propriedade, com que servem para as
consuadas; nella se conserva huâ ponte de páo junto a Flor da Roza ao canto da tapada
de Nossa Senhora, e caminho que vem para esta aldea; mais a baixo em pouca distancia
tem outra ponte de pedra chamada =a de João Peres= na estrada, que vai da Villa do
Cratto para a aldea do Chamiso, e junto della dous moinhoz destinadoz para fazer
farinhas no tempo do Inverno, em que sómente se conserva a sua corrente. Tem
outra ribeira ainda mais pequena, que se faz de muntoz ribeiroz perto desta aldea, que
tambem corre do Nascente para o Poente; e logo junto desta aldea tem huâ ponte de
pedra no caminho que vay para Flor de Roza, e Cratto, e mais a baixo hum quarto de
legoa tem hum moynho de fazer farinhas, a que chamâo o moynho da Coutada, e ribeira
da Nave da Caldeyra: juntâose estas duas ribeiras meya legoa distante desta aldea, na
estrada, que vem da Villa do Cratto para a de Abrantes, aonde já chamâo =a ribeira
de

/p. 280/ de Cujancas, e ahi tem huâ bem feita ponte de pedra, a que chamâo = a ponte
de Cujancas; e em pouca distancia perde o nome, porque chegando ao lemite de Aldea
da Matta já tem o nome =de ribeira da Vargem=

E ao que se me offereçe dizer a Vossa Senhoria a respeito doz referidoz
interrogatorioz, deixando no sileencio aquelles, a que nâo tenho resposta, que possa dar;
a vista de tudo Vossa Senhoria mandará o que for servido. Val do Pezo 5 de Outubro de
17591.


O Reitor Cura Jozé Nunes Fidalgo.
[Assinatura autógrafa]


(1) Sublinhado no original.


Transcrição: Lígia Duarte

Actualizado em Terça, 08 Fevereiro 2011 16:49  

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