Memórias Paroquiais

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S. Bartolomeu, Vila Viçosa
VILA VIÇOSA, 1758, 20 de Abril.
Memória Paroquial da freguesia de S. Bartolomeu, concelho de Vila Viçosa, distrito de
Évora.
(ANTT, Memórias Paroquiais, volume 40, nº 271a, pp. 1665 – 1668).
/p. 1665/
VillaViçoza S.Bartolomeu
Obedecendo á ordem de Vossa Excelencia em que
me manda responder a huns interrodatorios
que com a mexma me forão entregues, digo que
esta Villa Viçosa hé huma das mais illustres
povoaçoens do Alem Tejo: nela residião os serenissimos
Duques de Bragança athé que com a aclamaçam
do senhor D. João 4 transferirão o seu assento para
a corte de Lixboa. Abunda de couzas muito
notáveis; mas como estas são do territorio
da jgreja matriz, ao reverendo prior della pertense
refferi-laz, descrevê-laz; pois eu cingindo-
me percissamente á minha freguesia, digo que
Tem esta freguesia de S. Bartolomeu
563 fogos, e 2073 freguezez, os quais são
curados por hum prior, que tem de congrua
tres moyos de trigo, dous de sevada, e vinte mil
reis em dinheiro, e dous beneficiados tem cada
hum de renda dous moyos de trigo, moyo,
e meyo de sevada, e dez mil reis. Tanto prior
como beneficiados são da appresentação de Sua
Magestade como governador e perpetuo administrador
da Ordem Militar de S. Bento de Aviz,
a cuja Ordem pertencem as jgrejas parochiaiz,
e comenda desta villa.
Não tem a freguesia jgreja
proprias [sic] e se está servindo há muitos annos
da jgreja da Misericordia sem que Sua Magestade
por mais contas, que desta falta lhe tem dado
os priorez da mesma tenha sido servido mandar
continuar à jgreja propria, que há muitos anos
se conserva só com os alicersez. Estão sitas
nesta jgreja paroquial tres jrmandades:
primeira do Santissimo Sacramento que alem das obrigações
gerais à similhantes jrmandades cuida do ornato do
altar, e culto de huma jmagem do senhor morto vulgarmente
chamada o senhor do descendimento; com o qual tem
/p.1666/
este povo huma extraordinaria fé, e devoção:
segunda das almas, que florece muito pella grande piedade,
e applicação dos jrmãos, que administrão os seos
bens conservando outo cappellaenz com missa
quotidiana e tendo a sua sachristia muito bem
provida de pratas e ornamentoz: terceira da Senhora
do Rosario; que não tem couza, que mereça particular
memoria.
A caza da Misericorda
hé das mais antigas deste Reino, e se entende
a erigirão os serenissimos Duques de Bragança,
que servião de provedores, emquanto residirão
nesta Villa e ainda hoje os provedores, e escrivãez
não são feitos por votos da jrmandade, mas ella
propoem tres para cada hum dos dois cargos, e Sua
Magestade escolhe qual lhe parece, particularidade
que não consta tenha outra algũa Misericordia.
Tem de renda 444.667 reis; e assim
hé a mais pobre de todas as circumvisinhas.
Nesta caza erigio a piedade dos serenissimos
Duques de Bragança hum hospital para
curar o mal venereo nas duas estaçoenz de
Primavera e Oitoneo, dotando-o para este effeito
com liberalidade propria de tão grandes princepez;
pois lhe consignándo em cada hum anno 406.070
reis sette moyos e meyo de trigo, e vinte quatro
alquirez de azeite, tudo pago no almoxarifado
desta villa vindo todas estas addicçoenz nas
folhaz, e sendo cobradaz por conhecimento do escrivão
da meza. Porem, depois do terremoto
de 55 nùnca mais vierão lançadas nas
folhas do almoxarifado as ditas addicçoenz com motivo
de se terem queimado no incendio daquelle
fatal dia os tituloz por onde se lançavão, suprimindo-
se por esta falta as curas do dito mal, com
grande perjuiço dos pobres, que morrem faltos de
/p. 1667/
remedio, não havendo em toda esta Provincia
outro algum hospital, em que se fação similhantes
curas.
Há nesta freguesia dois conventos
de religiosos, e dous de freiraz, daquelles hé
hum a caza professa da Companhia de Jesus, cujas
comunidade se compoem de oito sacerdotes, e dois
leigos; e o outro he de S. Paulo, que costuma
ter 22 athé 27 religiosos. De freiras hé
o primeiro o das Chagas do instituto do Patriarcha S.
Francisco que tem numero certo de 60, eo de Santa Cruz,
que proféssa a regra de Santo Agostinho, que não
tem numero certo de religiosas; e ao prezente se compoem
de oitinta, e tantas. Os tres primeiros
conventos tem por padroeyros os serenissimos Duques
de Bragança, e só o de Santa Cruz hé, que
não tem padroeyro algum. Hé o que se me
offerece dizer a Vossa Excelência. VillaViçosa em 20
de Abril de 1758 1 .
[Prior]2 da freguesia de S. Bartolomeo de Vila Viçosa Frei Antonio Xavier do Válle.
Transcrição: Francisco Segurado
Revisão: Fernanda Olival
1 Sublinhado da época.
2 Margem apertada e como tal ilegível no microfilme do ANTT.

Sousel, 17581.
Memória Paroquial da freguesia de Sousel, comarca de Vila Viçosa
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 35, nº 236, pp. 1675 a 1692]

 


Excellentisso Senhor
Por ordem de Vossa Excellencia fui notificado para fazer mapa desta freguezia
na forma do impreço que se me entregou ao que respondo pella mesma ordem, e
paragrafos como comtem o mesmo impreço.
1 Fica a Villa de Souzel na Provincia de Alemtejo Arcebispado de Evora
comarca de Villa Viçoza tem termo seu e huã so freguezia que he a da mesma villa:
2 He dos excellentissimos Duques de Bragança, e hoje princeza nossa senhora.
3 Tem esta Vila trezentos, e oytenta e seis vezinhos.
Tem a villa so em si 1389 pessoas fora as ortas e erdades que estas tem de
pesoas duzentas e quarenta e oitto pessoas ou almas e todas juntas tem esta freguezia e
seu termo digo somente a freguezia da villa ortas e erdades mil seiscentas e trinta e sete
almas.
4 Está situada esta villa de Sousel em hum monte não muito alto e da mesma
villa se descobrem e vej claramente a Villa de Vejros que dista desta duas legoas – a
Villa de Fronteira que dista desta duas legoas = a Villa de Cabeço de Vide tres legoas =
a Villa de Alter do Chão sinco legoas


/ p. 1676/
A villa de Alter Pederozo sinco legoas = a Villa de Figueyra duas legoas = a
sidade de Portoalegre dista desta sete legoas, e lhe destinguem os seburbios da mesma
sidade em dia claro.
A Villa do Canno hῦa legoa que dista desta Vila de Souzel.
5 Tem esta villa termo seu não tem lugares nem aldejas so sim se compoem de
23 erdades a que aqui chamão montes que apenas excedem de dois ate tres vezinhos
este [sic] se chamão – Gião = Lestão = Antigo = Monte da Serra o Rodinho = Serrinha=
Palmejra = Freixeal = Peladouro = Cardialinho = Rodos digo Covão = João Pardo =
Alcarias = Montte do Olival = Valle de Odrinho = Montinho do Talego= Talego =
Monte Ruivo = Valle de Odre = Albardeira = Monte Branco = de Pestunna- Sovereira=.
6 A parrochia desta villa está a hum lado da villa da parte do Nascente e
comjunta a mesma villa não tem lugares nem aldejas e freguesia e somente se compoem
de erdades que não excedem de dois ate tres vezinhos como vão declarados os
nomeados no 5º paragrafo supra.
7 O orago he de Nossa Senhora da Graça tem sete altares - o altar mor de Nossa
Senhora da Graça aonde está o Santissimo tão bem em cobre, e São Bentto por ser esta
Jgreja da ordem de São Bento de Avis.


/p. 1677/
Ao lado direito tem o altar da senhora do Rozario tem jrmandade pobre sem
rendas festejão os jrmãos a senhora – da mesma parte o altar das almas tem confraria
tem pouco mas o zello das Irmandades [sic] fas com que tenhão missa quotudianna e
alguas missas se dizem fora desta villa que bem poderião ter dois capelais – da mesma
parte está o altar de São Lazaro de capella particullar de Manuel Pires Antigo que
deixou os seus bens a Confraria do Senhor e esta paga ao capellão e dá o guizamento
nesecario e orna esta capella depois de se darem huns dotes de des mil reis dois dotes
cada anno e sim não tem confraria = tera Jrmandade do Senhor depois de compeletas as
oubrigaçõis que tem oitenta ate noventa mil reis em altas e baixas conforme o colher
dos trigos que são as suas rendas = ao lado esquerdo tem o altar da Senhora dos
Prazeres pobre sem renda alguã foi comfraria hoje extinta = tem outro altar he hῦa
capella particullar que administra Bertholameu Madeira da Villa de Aviz com
oubrigação de se lhe dizerem hum anual de miças na ditta capella = que tem hum
quadro mui destruido que senão percebe a pintura e por incapas senão dizem as miças
na dita capella = tem outro altar de outra capela particullar tãobem com hῦa pentura de
Nossa Senhora da Piedade muito destruido tem capellão mas são as miças reduzidas;
porque o admenistrador que he Antonio Velho não tem mais oubrigação de que dar
dezoito mil reis para hum anal de micas e estas se reduzem por hum breve.

/p. 1678/
Tem esta Igreja tres naves declaro que a capella de São Lazaro terá de renda
cento e secenta mil reis desta renda se paga ao capellão se dão os dotes como ja disse
dois de des mil reis, e a quarta parte pela admenistração vai para a Jrmandade do
Senhor e o mais se dá em esmollas de trigo pello Natal, e Paschoa na forma do
testamento de Manoel Pires Antigo.
8 O parrocho desta Jgreja he freire conventual, ordinariamente, he prior, e he da
Ordem de São Bento de Aviz dá esta Jgreja a Menza da Conciensia e he por repozição
que fazem os freires que disto fas a Menza consulta e El rej como Grão Mestre da
Ordem confirma o que a Menza votta e aprova tem de renda tres mojos de trigo dois
mojos e mejo de sevada - vinte mil reis en dinheiro e o mais de contigente tem hῦa
admenistração da capela do Espirito Santo que de a quinta parte.
9 Tem tres benefeciados os quais são da Ordem de São Bentto tem cada
beneficio dois mojos de trigo = e mojo e meio de sevada – e des mil reis em dinheiro e o
mais he contigente aprezenta estes beneficios a Menza da Conciencia mas he por
opuzicõis que a elles fazem.
10 Tem esta Villa de Souzel hum só convento de relligiosos de São Paulo não
tem padroeiro está situado a parte do sul conserva ordinariamente catorze ate dezaseis
religiozos.


/p. 1679/
Tem rendas que bastem para sustento dos mesmos relligiozos a sua Jgreja he de
Santo Antonio filial da Matris destta Villa de Souzel que tem sete altares - o altar mor
de Santo Antonio e de Santo Paullo = da parte direita tem hum altar com hum senhor
crucificado – outro altar tem hum senhor com a crux ás costas = outro de Santa Anna =
a parte esquerda outro altar da senhora da Conceição outro altar da senhora de Soledade
= outro altar da Senhora do Carmo = tem tres Jrmandades de Santo Antonio - da
Conceição – das Chagas = e sem rendas = concedeose esta Jgreja aos ditos religiozos
que era ermida para mudarem o convento de Fonte Arcada sito no termo de Aviz por ser
doentio e de máo clima em que houverão licença da Menza da Conciencia e de El rei
como Grão Mestre da ordem de São Bentto de Aviz ficando sempre em pé o direito
parrochial ao prior, e benefeciados e seus sucesores em diante na forma da escritura
feita em presença do prior mor Dom Fr. Lopo de Sequeira nas rotas do tabalião Manoel
Mendes na Villa de Aviz em que asignou o seu provincial e defenidores e hoje estão o
prior e benefeciados em a sua posse de hirem á dita Jgreja de Santo Antonio por ser
fellial em se mandar os defuntos e fazer todos os mais actos de juridisção na dita Jgreja
ofeciando em qualquer ocazião que se ofereça: para esta Jrmida se fazer digo para se
fazer este conventto comcorreo o povo desta Villa com suas esmollas.


/p. 1680/
El rei mandou pello Desembargo do Passo ao provincial que nomease
patrimonio e nomeou o mesmo patrinonio do convento de Fonte Arcada sito no termo
de Aviz e detreminou Sua Magestade não houvesse mais relligiozos no dito convento de
Fonte Arcada que hoje se chama a Erdade da Provença e procurando a renda que teria o
convento ao mesmo reitor me não disse mas o serto he que com as muitas capellas de
missas que tem cojuntamente com as rendas do seu patrimonio pasão muito bem os
relligiozos porque tem rendas de trigo e muntos oliviais;
11 Não tem hospital;
12 Tem huã caza de Mezericordia com o nome de Hospital junta a mesma jgreja
chamada a Mizericordia a qual tem tres altares – o altar mor com sua tribuna que cobre
hum retabullo ou quadro de pintura da Senhora do Amparo e nas roupas hum sacrario
mas não tem sacramento ainda que se expoem na semana santa o sacramento - tem
outro altar da Senhora da Piedade = tem outro altar do Senhor com a crux ás costas, e
não tem renda particullar os altares esta Caza de Mizericordia somente cura os
emfermos que a ella chegão com imposibilidade de os poderem conduzir para o
Hospiital da Villa de Estremos e he unida a dita caza ou albergaria com a Mizericordia a
qual foi fundada pellos excellentisimos /p. 1681/
Duques de Bragança dezaseis annos depois da de Lisboa mandando a esta Villa
o seu ouvidor barguncil das terras de Entre Tejo e Guadianna dizendo fundase a Jgreja
da Mizericoridia junto a albergaria da mesma Villa que hoje he a dita caza chamada o
Hospital as rendas que a tal albergaria tinha concedeo e deo á dita Mizericordia o
Senhor Rey D. Sebastião na Villa de Montemor-o-Novo como consta de hum alvará que
se acha com oubrigaço [sic] de huã miça cantada dia do Corpo de Deus e miça todos os
domingos do anno pella Jrmandade consta do mesmo alvara; poderá ter de renda vinte,
e dois mojos de trigo não se sabe mais da origem da dita albergaria nem ha mais
memoria do que a ditta.
13 Tem esta freguezia a Jrmida de Santo Antonio que se concedeo aos
relligiozos de São Paulo = a Ermida São Sebastião sem renda = a de São Lourenço sem
renda algua = a Ermida de São Pedro sem mais renda do que vinte ou trinta mil reis a
juro = a Ermida de São Miguel sita na serra sem renda mais do que hum olival que
escaçamente dá azeite para a alanpada do santo e nella asistem ordinariamente dois ate
tres eremitas que estes tem acrescentado sua serca junto ao mesmo santo e o concelho
desta Villa lhe concedeo, huas terras de que pagão o foro de secenta reis ao concelho
tem alguns pes de olivejra.


/p. 1682/
A esta ermida vaj bastante gente de romaria em dias bons por devertimento na
mesma jgreja está a Senhora do Carmo tudo no altar mor primeiro e ultimo he de
abobeda com seu corozinho pequeno dentro da serca estão juntos a mesmos [sic] jrmida
que está ao sul os cobicollos dos eremitas = A ermida de São Bertholameu está ao
poente de munta romagem no seu dia emfinda gente he forejra ao ditto santo com hum
folgo vivo que ordinariamente são frangos galinhas pombos sem mais renda algῦa do
que estas oblatas = todas estas ermidas são destantes da villa mas não escedem de meja
legoa somente Santo Antonio esta na ponta da villa e São Sebastião a nascente tão bem
fora da villa. Tem outra ermida do Espirito Santo a parte do norte que terá de renda digo
tem doze mil reis na erdade chamada do Espirito Santo sito no termo de Estremos de
que tem a pose o devino Espirito Santo mais vinte e tres alqueires de foro na erdade das
olivejras termo de Frontejra mais hum quarto de ouro de foro de hum quintal mais
duzentos e ojtenta reis de foro de tres moradas de cazas – tem mais hum altar da
jrmandade terceira de São Francisco sem rendas está esta ermida dentro da villa –
pertence esta ermida a ordem de São Bento de Aviz pello que admenistrão os seus bens
os priores de que tem a quinta parte pella admenistração.


/p. 1683/
Todas as sobreditas hermidas são filliais a matris e a elles vão os priores ofeciar
são providas pellos priores em eremitãis que tem provizão da Menza da Conciencia por
pertencerem a ordem de São Bentto.
Na ponta da villa a parte do poente está Nossa Senhora da Orada ha tradição fora
fundação do conde D. Nunno Alveres Perejra tem tres altares o altar mor com secrario
que não tem sacramento nelle està a Senhora da Orada e São Jozé – terà de renda a
Senhora sincoenta mil reis de muita devoção para este povo por ser o seu amparo = tem
mais outro altar da Senhora da Anunciada sem renda algῦa = tem outro altar com hum
senhor crucificado que vejo de Roma que o mandou o Padre Jgnacio da Silvejra natural
desta villa e padre da Companhia e asistente do Geral he este Senhor de muita devoção
e tem os devotos munta fe pello que este Senhor e a Senhora da Orada são
continuamente vezitados, era da ordem e hoje está de pose o ordinario e admenistra seus
bens hum jrmão ainda que o governo he do ordinario sempre andopella posse vão
ofeciar o prior e benefeciados que ele tem ocazião de o fazerem – e tomão conta os
provedores


/p. 1684/
os provedores, e juntamente os vezitadores do Arcebispo dos bens desta
confraria da Senhora da Orada.
14 A todas estas ermidas que são ojto não se frequentão as vezitas senão nos dias
dos mesmos santos excepto São Miguel e Senhora da Orada porque continuamente são
vezitadas estas ermidas dos devottos.
15 Os frutos da terra que se colhem são trigos sevadas e sentejos e azeite e o
trato da terra ser1 o major de lavouras.
16 Tem juis de fora e he ducado de Bragança e em falta do juis ha juis ordinario
que he o vereador mais velho tem correjção e he o ouvidor de Villa Vicoza e o provedor
de Evora que vem tomar contas das capellas e as do concelho.
17 Não he cabeca de concelho nem de comarca.
18 Não ha memoria de que florecesem ou desta villa saisem homens insignes
mais do que o Padre Jgnacio da Silvejra homem douto na relligião da Companhia de
Jezus aonde foj rejtor em Cojmbra e Evora doutor de bolrra branca provincial da mesma
e foj ellejto asistente do Geral em Roma aonde falleceo2 em arrmas não ha noticia
algῦa em vertude so ha noticia que desta villa fora para a
/p. 1685/
para a relligião da Companhia o Padre Manoel Rodrigues natural desta vila filho
de Manoel Rodrigues, e de Maria Alvares tinha de idade 183 annos era estudante do
premeiro cursso quando emtrou na relligião no anno de 16674 se embarcou para a Jndia
aos 27 de Abril na nau chamada São Bento hia destinado para a provincia de Goa e
nella trabalhou incasavelmente na misão do rejno de Marssur foi rogado para ler
theologio [sic] e mais quis os trabalhos da mição do que os lustres da cadeira tendo por
melhor o de crux na mição de Massur que tinha cultivado por espaço quaze de vinte
annos obrou accois de muita humildade e piedade e pasou ao Jmperio da China aonde
morreo de 755 annos de jdade e neste Jmperio fundou hum hospital para recolher os
pobres e sustentallos fes se hospitaleiro do mesmo hospital ahi converteo hum gentio
muj rico e outras mais principais que se quejxarão ao emperador e fizerão fose
desterrado da corte aonde vivia ofercendo as virtudes e sofrendo afrontas e os mesmos
christãos lhe davão muitas esmollas para os seus pobres e o gentio se converteo porque
ver que elle nada tomava para si senão para os seus pobres6 esta memoria consta de
hum livro que se acha na Companhia de Evora donde se me mandou a suma do referido.
/p. 1686/
19 Tem esta Villa hua só feira dia de São Miguel dura tres dias franca que he em
29 de Setembro.
20 Tem somente estafeta que vai buscar as carttas a Villa de Estremoz que dista
desta villa duas legoas chega o estafeta a quinta feira e parte para Estremoz ao Sabado
com as carttas.
21 Dista esta villa da sidade de Evora capital da provincia do Alemtejo sete
legoas, e a sidade de Lisboa capital do reyno dezoito legoas da terra digo vinte de terra.
22 Não tenho mais noticia do que haver alguas cartas dos duques de Bargança
[sic] nos cartorios sobre os governos da terra nem ha memorias de privilegios alguns ou
cousas dignas de memoria.
23 Não ha nesta terra fonte ou lagoa celebre.
24 Não ha porto de mar?7
25 Não he murarada [sic] esta villa porem tem seu castello com suas 3 torres
mas estão estas muito destruidas e aruinadas como tão bem huas cazas nobres dentro do
mesmo castello que se achão em terra?8


/p. 1687/
26 Não se padeceo ruina concideravel no terremotto de 17559 mas ja somente
duas aberturas nas jgrejas que forão reparaveis.
27 Não ha couza digna de memoria de que se possa fazer menção.

Da serra de Souzel
1 Que asim se chama e a mesma ordenação do rejno asim a nomea.
2 Terá de comprimento neste termo hua legoa e dizem duas que este cordão de
montes he da Serra Morena outros que he hum braço que fas a Serra de Ossa e que vem
acabar perto da Vila do Canno do Cano [sic] que distará do ultimo monte á dita villa
meja legoa compoemse esta serra de hum cordão de montes huns altos outros mais
baixos e tem cada monte hum nome a saber - a Serra, ou Monte do Cajcheiro = o Monte
da Serra = o Monte dos Cantinhos = a Cova de Maria Caldeira = a Serra ou Monte de
São Miguel = o Monte de Valle Largo = o Monte do Seixo = e de lado o Monte de João
Pardo = o Posso dos Viejros = o Monte ou Serra das Caejras = de lado a Serra dos
Bacellos =


/p. 1688/
A Serra ou Monte do Sambugeiro = a Serra Fragoza = ou das Perdizes = a Serra
Faquinha = a Serra de São Bertholomeu donde esta situada a sua ermida tera de largura
em partes meja legoa e em outras menos e entre estes montes tem seus valles que se
cultivão.
3 Não deita braços entre nos neste termo e freguesia porque acaba.
4 Nasce ás vinhas desta villa que são na emcosta da serra o rio chamado
Alcorrego que dirigindo seu cursso para o norte por espasso de mejo quarto de legoa o
toma para o poente e se emcaminha pello termo de Aviz aonde emgroçando de varios
regatos se vaj meter na Ribejra de Fronteira ou de Aviz que he a mesma emtre a dita
Aviz e Cabeção que dista daqui quatro legoas ?10
5 A longo da serra que comtem esta freguesia e termo não tem povoacois
alguãs?
6 Nihil?11
7 Na serra não ha minas de metais mas sim de pedras marmores muinto finas,
pretas e azuis que disto he a serra muito abundante toda a serra.
8 He esta serra cheja de muito alecrim e dizem que de muitas ervas medicinais, e
por senão conhecer sua vertude senão uza dellas e tal a variedade de flores que a serem
cultas se estimaria por raras


/p. 1689/ por raras cultivase os baixos e alguas altas de se semearem trigos sendo
as emcostas para a parte do norte todas chejas de olivais que fazem a terra muito fertil
de azeite que terão de comprimento hua legoa.
9 Não ha na serra mais do que a Ermida de São Miguel frequentada quazi e
sempre e São Berthollameu no seu dia.
10 A quallidade do temperamento he excellentte muito puros os seus ares e
deliciozo pella vistta porque se descobre da qualquer dos montes da ditta serra para a
parte do norte ate a Serra da Estrella para a do sul quatro ate sinco leguas para o poente
ate os Montesjuntos descobrirá dezaseis ou dezasete legoas e para o nascente o que e
vista pode alcançar e dos ditos montes se vaj as terras que ja vão declaradas e a Villa de
Aviz, Galveas e Estremoz Vimiejro Evoramonte Arrajolos e hῦa ermida junto a
Montemor-o- Novo.
11 Na ditta serra não se crião gados porem em todo o tempo he grande refugio
para os gados dos lavradores dos dilatados campos de Amejxial com quem comfinão
pella parte do sul he muito abundandante [sic] de perdizes coelhos lobos, e rapozas.
12 Nihil.
13 Nihil.
O que se procura saber do rio desta terra
1. Chamase a Rebeira ou Rio de Souzel, nasce estta em o termo de Estremoz no
sito da Pera Seca e corre para o norte e devide o termo destta Villa do de Estremoz e de
Vejros e Frontejra quando ja comesa voltar o cursso para o poente aonde entrando no
termo de Aviz vaj desaguar na Rebejra de Fronteira na freguesia da Senhora dos Barros
emtre a Erdade do Charrão e Lamejra aonde tem duas cachoejras ou fragoas mui altas
que impede subir o peixe.
2 Nasce muito fraco não corre senão de Jnverno e pouco mais.
3 Emtrão nesta Rebeira ou Rio de Souzel dois rebejros hum chamado de Val de
Odra e outro das Mulheres no sitio do Tallego que he hῦa erdade asim chamada.
4 Nihil
5 Em todo o tempo mui pacifico menos em tempo de chejas grandes.
6 O nascimento corre para o norte por destancia de quazi hua legoa e dahi para o
poente.
7 Cria excelentes bordallos de bom gosto piois muj saberozos e pardelhas muj
delicadas e gostosas.
8 Em todo o tempo se pescão os ditos pejxes de Verão e de Jnverno aonde
conserva agoa porque não corre todo anno.
9 São as pescarias livres para todos excepto os mezes defezos.
10 Cultivãose as suas marges de trigos e melloais e fejxoais e em alguas partes
seus matos de boleta.
11 Nihil.
12 Conserva sempre o mesmo nome.
13 Morre na Rebejra de Aviz que he a mesma de Frontejra emtre as Erdades do
Charrão e Lamejra na freguezia dos Barros defronte da Coutada da Villa de Figueira.
14 Tem hῦa cachoeyra por modo de preza ou levada que impede subir o poste o
qual não pode subir senão em cheyas muy extraordinarias que se fose rio navegavel
impediria a navegação.
15 Tem somente hua ponte de pedra de cantaria na pasagem de Souzel para á
Villa de Fronteira?
16 Tem oytto moynhos este rio ou rebeyra de Souzel os quais não moem senão
de Jnverno, e sendo a Jnverna [sic] mayor moerão ate o fim de Abril: não tem lagares
de azejte porque estes os há dentro da villa que são seis lagares somente – pizois não ha
na dita rebejra nem qualidade alguã de emgenho.
17 Nihil.
18 Nihil.
19 Terá este rio desde o seu nascimento ate a rebejra ou rio de Aviz ou Frontejra
que he o mesmo tres legoas não passa por povoaçois algῦas lugares ou aldejas.
20 Não ha couza mais notavel, e nem digna de memoria, ou de que se possa
fazer menção.


O Prior Fr. Jozé Alexandre Guerreiro Camacho de Aboym [Assinatura autógrafa]

 

(1) Emendado na mesma época e com o mesmo traço para “he”.

(2) Segue-se um espaço em branco.

(3) Sublinhado da época.

(4) Sublinhado da época.

(5) Sublinhado da época.

(6) Espaço em branco a seguir a pobres.

(7) O ponto de interrogação talvez não seja da época.

(8) O ponto de interrogação parece posterior e de outra mão.

(9) Sublinhado da época.

(10) O ponto de interrogação parece posterior e de outra mão.

(11) O ponto de interrogação parece posterior e de outra mão.

 


Transcrição: Maria Patrício dos Santos
Revisão: Fernanda Olival

Casa Branca, 1758, Maio, 15
Memória Paroquial da freguesia de Casa Branca, comarca de Avis
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 10, nº 235, pp. 1587 a 1588]

 


Nº 1161


Caza Branca Vigararia de Sousel.
Termo de Avis


Exmo. e Reverendissimo Senhor


Em cumprimento do mandato que por Ordem de V. Ex.ª me foy apresentado para
responder ao que se procura no papel incluzo digo que esta freguesia chamada da Aldea
da Caza Branca he sita na Provincia do Alentejo pertencente ao Arcebispado de Évora;
da comarca e termo de Aviz.
He de ElRey como governador, prepetuo administrador que he da Ordem, e cavalaria
de São Bento de Aviz.
Tem vizinhos dentro da aldea noventa a seis; e fora da aldea dispersos pelos montes
setenta e dois: pessoas mayores dentro da aldea duzentas e trinta; menores setenta e seis.
Fora da aldea pessoas mayores duzentas e setenta, e menores sincoenta e duas.
Está situada esta aldea em campina; dela se descobrem tão somente a Vila do Canno
que fica ao Nordeste distante meya legoa: A Vila de Estremos, que fica ao Nascente
distante três legoas: e a Vila do Vimieyro, que fica ao Sul distante duas legoas.
Não tem próprio termo, porque esta em termo de Aviz.
Tem a igreja parochial nesta aldea, cujo orago he Nossa Senhora da Graça a quem se
faz festa aos quinze de Agosto. He de huma nave so; tem quatro altares excepto o
mayor; dois são colateraes; os outros dois de lado. Os colateraes hum he de Nossa
Senhora dos Preses; outro de Santo Christo. Os de lado hum he de Nossa Senhora do
Rozario; e o outro das santas almas.
Tem as irmandades seguintes. A de Nossa Senhora da Graça: a do Santissimo
Sacramento a do Rozario, e a das Almas.
O parocho desta freguesia intitulase capellão curado: he da apresentação de El Rey
como governador, e prepetuo administrador do Mestrado e Ordem de São Bento de
Aviz. Tem de renda dois moyos de trigo, e moyo e meyo de sevada pagos pela
Comenda de Aviz; e mais quinze mil reis em dinheiro pagos pello Almoxarifado de
Benavente; não tem beneficiado algum.
Tem esta freguesia duas ermidas que lhe pertencem: huma dentro da aldea, outra fora;
a que esta dentro intitulase de São Miguel; e nesta esta tambem huma imajem
prodigioza em milagres, que he hum Santo Christo de pedra. A que esta fora chamase
de São Bras, e ao seu dia concorre a ela muita gente em romagem; no mesmo dia se fas
ali no campo proximo a ermida hum mercado, o qual he livre. Esta ermida ainda que
pertence a esta freguesia com tudo esta em termo da Vila de Pavia.
Os frutos desta freguesia são algum trigo, sevada e senteyo, e bolotas, porque a mayor
parte della he charneca.
Não tem juiz ordinario, porque esta sugeita ao governo das justiças de Aviz, e
somente tem aqui na aldea um juiz chamado de vintena.
Não tem correyo; porem se he preciso valese do correyo de Aviz, que dista daqui
duas legoas. Desta aldea à cidade capital do Arcebispado distão sete legoas; e a cidade
capital do Reyno vinte e huma.
Padeceo ruina no Terramoto de 1755 a igreja parochial de Nossa Senhora da Graça e
a igreja ou ermida de S. Miguel; e posto que não foy muito concideravel, ainda se não
reparou, porque os moradores desta freguesia são todos pobres.
Tem esta freguesia dois rios pequenos, que se juntão ao depois em hum: ambos tem
seu principio no Campo do Ameyxial termo de Estremos: hum na Orta da Granja, e
chamase Almadafe Seco; o outro que se chama Almadafe Molhado principia à Fonte da
Talisca: vem estes dois rivulos unirse nesta freguesia por bacho da Ponte da Dourada e
com o nome de Almadafe vai continuando the os moinhos da Ribeira de Cabeção onde
morre, e finaliza: e não tem mais pontes que tão somente a da Dourada, a qual he de
pedra.
Correm do Nascente ao Poente; são arabatados em tempo de chuvas; e correm
somente no Inverno; e neste tempo crião alguns piscicullos chamados pardelhas, e
badalos.
No Almadafe Molhado esta hum moinho por bacho da Erdade das Barrochas desta
freguesia; e depois que a este se junta o Almadafe Seco tem mais dois moinhos hum
junto ao monte da Erdade do Tindeiro; e o outro por bacho da Erdade do Maronoto tudo
nesta freguesia; e desde o nascimento destes dois regatos the a ponte da Dourada aonde
se unem deitão duas legoas; e daqui the os moinhos os moinhos da Ribeira de Cabeção
onde finalizam outras duas legoas.
Sobre os mais interrogatorios que no papel se procurão não tenho que dizer cousa
algum [sic], e para asim constar me asinei Caza Branca 15 de Mayo de 1758.

O Parocho –Fr. Jozé Lopes Gracia
[Assinatura autógrafa]

 

(1) O número parece estar riscado.

 

Transcrição: António Carlos Paixão
Revisão: Fernanda Olival

Cano, 1758, Maio,15
Memória Paroquial da freguesia de Cano, comarca de Avis
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 39, nº 183, pp. 1103 a 1106]


Nº 183
Villa do Canno comarca Avis


Está esta Villa, na Provincia de Alentejo, he do Mestrado de S.Bento, e do
Arcebispado da Sidade de Evora, da qual dista sette legoas, e hé da comarca
de Aviz, e dessa dista duas legoas, e meya.
Tem esta Villa cento outenta, e tres vizinhos, e estes de prezente, tem
ceiscentos, e outenta e duas pessoas, entre mayores e menores.
Está esta Villa setuada em huma planice, e della se deixão ver a Villa de
Arrayolos com distancia de quatro grandes legoas, e a Villa do Vimieyro, que
dista duas grandes legoas, e a Villa de Évora Monte, que dista tres legoas, e a
Villa de Fronteira, que dista duas legoas, e a de Cabesso de Vide, que dista
tres legoas, e do termo desta Villa se vé o castelo de Estremos com distancia
de tres legoas, e a Villa de Alter Poderozo1, que dista tres legoas e a Villa de
Avis, que dista duas legoas e meya, e a Villa da Figueira, que dista legoa, e
meya.
Tem esta Villa termo proprio, que para a parte do Nascente tem meya legoa
de distancia, e para as mais menos de hum quoarto, não tem no seu termo
lugares, nem aldeias.
A parõchia está quazi fora da Villa para a parte do Nascente, he da Ordem
de S. Bento, he do Orago de N. Snrª. da Grassa; tem hũa só nave e sinco
altares. No altar mayor está o tabernacolo do Santissimo Sacramento, tem
jrmandade, e tem a jmge de N. Snrª. da Grassa em vulto, e tem jrmandade,
tem hum venerando crusifisso no alto da tribuna: tem mais a image de N. Snrª
da Concejção em vulto. Tem Irmandade, tão bem tem a jmage do Menino
Jesus não tem jrmandade. Tem mais hum altar de N. Snrª. do Rozario com a
sua jmage em vulto, tem jrmandade; tem mais o altar de N. Snrª. das Neves
com sua jmage em vulto, e a do gloriozo São Gonçallo, e a de S. Martinho
Bispo, e Confesor não tem jrmandades. Tem mais o altar das Almas com hum
vererando Crucifixo tem jrmandade; tem mais o altar de S. João honde se
venera com sua jmage em vulto, e S. Thiago Mayor não tem jrmandades.
Tem a matriz desta Villa hum prior, e hum benefeciado professos na Ordem
de S. Bento, os quais são aprezentados pello tribunal da Menza da Conciencia,
e comfirmados pello Reverendo Ordinario deste Arcebispado. O prior tem de
renda tres moyos de trigo, e dois moyos de sevada e vinte mil reis em dinheiro.
E o beneficiado dois moyos de trigo, e moyo, e meyo de sevada, e dez mil reis
em dinheiro.
Não tem esta Villa no seu termo e lemite convento algum relegiozo. Fora,
mas perto desta Villa estão quoatro hermidas todas feleais desta matriz a saber
a de Stª. Catharina Virgem e Martir com a sua jmage em vulto não tem
jrmandade, a de Stº. Antonio com sua jmage em vulto tem jrmandade, esta tem
mais dois altares hum de S. Joze
E outra de S. Braz com sua jmage em vulto mas não tem jrmandade. E a de
S. Pedro com a sua veneranda jmage em vulto tem jrmandade e a de S.
Sebastião com sua jmage em vulto não tem jrmandade.
Tem esta Villa caza de Miziricórdia com seu compromisso comfirmado pella
Rainha a Snrª D. Leonor com data do anno de mil quoatrocentos noventa e
outo do mez de Agosto a qual tem de renda de trigo duzentos e outo alqueires,
e em dinheiro vinte outo mil novecentos trinta e dois reis. A jgreja he de huma
nave tem somentes hum altar e neste hum crucifisso, he governada esta
jrmandade por hum provedor, e hum escrivão, e doze jrmãos cuja eleyção
anual se faz em dia da vizitação de N. Snrª. tem hospitaleiro, e cazas donde se
acomodão os pobres pregrinos, e os que trazem carta de guia são providos
com a pocibilidade da renda da casa, e os que vem emfermos são providos
com a sua esmôlla, e se lhe da cavalgadura para os conduzir ao lugar para
honde dizem querem hir.
Os frutos de que se utilizão os moradores desta Villa he de fazerem suas
searas na coutada do concelho, que tem aforada em sortes e pello termo ser
limitado muitos se valem de hir semear ao de Souzel, e de Aviz, e major
abundancia que há de frutos nesta Villa he na de azeytona de hum grande
ramo de olivais, que tem, porque não somente a dá em abundancia para os
moradores della, mas vendem muito para fora, e he o azeite da mellhor
qualidade, que os das terras comfinantes. Nas hortas, e quintais desta Villa há
tanta fruta daguarda, e de carouuzo que não somente dá provimento aos seus
moradores, mas para lhe darem comsumo os vão vender as terras
circunvizinhas.
He governada esta Villa por dois juizes ordinarios tres veriadores, e hum
procurador escrivão da camara, dois almotacés cuja eleyção de juizes
vereadores, e procurador, se faz de tres em tres annos, a que prezide o
corregedor da comarca, e no principio de cada anno sahem por sorte os
officiais, que hande governar, e são confirmados pello ouvidor da comarca;
para quem agravão, e apellão os moradores desta Villa cujo concelho tem boas
casas de câmara prassa, e seu pelourinho cadeya; e asouge de carne, e caza
de peyxe, e tem seu foral de villa comfirmado por El Rey e Snr. D. Manoel, e
neste se faz menção ter ja foral mais antigo. Não he coutto esta villa, mas sim
livre cabessa de concelho, nem tem behetria.
Foy natural desta Villa o Reverendo Padre Fr. António do Canno religiozo da
Provincia da Piedade, que movido do zello da salvação das Jndias se
embarcou para o Gram Parã, em cujo gloriozo emptrego lhe tirarão a vida
aquelles grandes barbaros. Foi tambem natural desta Villa o Reverendo Padre
Fr. Christovão Tregineiros conventual do real convento de S. Bento de Aviz do
quall foi superior; e pella authoridade das suas prendas foi vezitador geral de
toda a hordem. Tambem foi natural desta Villa o Reverendo Padre Simão de
Almeyda, religioso da Companhia de Jesus que pellas suas prendas, e
capacidade foi perfeito da Univercidade de Evora.
Tem esta Villa huma feira no dia vinte a quoatro de Agosto dia de S.
Bartholomeu he franca e dura tres dias.
Não tem esta Villa correyo próprio, mas para a sua conrrespondencia se
cerve do correyo, que vem de Estremos, para a Villa de Aviz, em todas as
quintas feiras de cada semana, e da sesta feira passa de Aviz para Estremos.
Tem os moradores desta Villa hum previlegio, que lhe concedeo D. Fr.
Fernando Rodrigues Mestre da Cavalaria da Ordem de Avis na hera de mil e
quoatrocentos trinta, e outo no dia trinta de Agosto, no qual consta poderem os
moradores desta Villa do Canno, possão tirar livremente todo o trigo, sevada, e
todos o mais mantimentos com que se handem manter que tiverem no termo
de Avis, sem qualquer outro algum embargo.
Tem mais outro previlegio concedido por El Rey e Senhor D. Manoel em
confirmação de outro de El Rey D. Fernando dos quais consta poderem os
moradores desta Villa do Canno cortar para seus misterios madeiras em todo o
termo de Avis sem crime; foi passado em Evora em vinte e outo de Marsso de
mil quoatrocentos noventa e sette annos; como consta do tombo do concelho
desta Villa de folhas quatorze, athe folhas dezaceis.
Tem esta Villa no seu centro duas fontes de agoa potável, das quais sahem
dois canais que a cortão pellas ruas publicas de que se utilizão os seus
moradores regando as hortalissas, e arvoredos dos seus quintais, os quais
todos tem possos de agoa potavel, e estão bem povoados de latadas de
parrejra e arvores de plumages, que alguns excedem as hortas de outras terras
em cujo arvoredo nos mezes da Primavera asistem hum viveiro de aves
musicas [sic], que com a sua sonora medolia [sic] devertem os seus
moradores. Tem mais esta Villa dois olhos de Agoa corrente, em huã rua
publica que de Verão arrefrescão as suas ruas.
Tem o concelho desta Villa hum prado chamado o Rosio donde os tres
mezes da Primavera pastão livres as cavalgaduras dos seus moradores e
neste está hum olho de agoa chamado a Armolinha, que por experiencia dos
naturais se tem observado, que tomando o gado sanguesugas com outras
agoas, vindo beber nesta logo se soltão.
He esta Villa do Canno terra aberta sem muralha, nem trinxeira nem no seu
districto tem castello, nem torre. Não tem o termo desta Villa serra, nem ribeira
de que se haja fazer menção.
No dia dos Sanctos de mil settecentos sincoenta e sinco padecerão os
moradores desta Villa hum grande susto, e temor com o terremonto, mas não
morreo, nem ficou ferida pessoa alguma, não cahio caza nem edeficio, só sim
ficarão algumas paredes de cazas com suas raxas mas todas habitaveis.
Tem esta Villa no seu termo tres azenhas, e hum pizão aos quais emgenhos
dão agoa a fonte dos Olhos, e a fonte do Zambugeiro, sitas no seu termo. Tem
mais dentro da Villa tres lagares de azejte.


Villa do Cano pertencente a vigairaria da vara de Souzel2

Desta Villa do Cano foi natural Maria Lopes Leytoa, e na mesma cempre
viveo, e faleceu, que por conta da jdade lhe cahirão alguñs dentes, e lhe
tornarão a nascer depois de noventa e dois annos, que viveo.
E não tenho mais de que emformar sobre o empresso, que se me remeteo
por ordem do Excelentissimo, e Reverendissimo Senhor Arcebispo de Evora, e
por verdade me acigney Cano 15 de Mayo de 17583


Nuno de Calerey Alvares
Prior
[Assinatura autógrafa]

 

(1) Refere-se obviamente a Alter Pedroso.

(2) No canto superior direito, como se fosse um título.

(3) Na data os sublinhados são da época.

Transcrição: António Carlos Paixão
Revisão: Fernanda Olival

Casa Branca
Sousel
Casa Branca,1758.Maio.15
Memória paroquial da freguesia da Casa Branca.
(ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 10, nº 235, pp. 1587 - 1588).
Nº 1161
Caza Branca Vigararia de Sousel.
Termo de Avis
Exmo. e Reverendissimo Senhor
Em cumprimento do mandato que por Ordem de V. Ex.ª me foy apresentado para
responder ao que se procura no papel incluzo digo que esta freguesia chamada da Aldea
da Caza Branca he sita na Provincia do Alentejo pertencente ao Arcebispado de Évora;
da comarca e termo de Aviz.
He de ElRey como governador, prepetuo administrador que he da Ordem, e cavalaria
de São Bento de Aviz.
Tem vizinhos dentro da aldea noventa a seis; e fora da aldea dispersos pelos montes
setenta e dois: pessoas mayores dentro da aldea duzentas e trinta; menores setenta e seis.
Fora da aldea pessoas mayores duzentas e setenta, e menores sincoenta e duas.
Está situada esta aldea em campina; dela se descobrem tão somente a Vila do Canno
que fica ao Nordeste distante meya legoa: A Vila de Estremos, que fica ao Nascente
distante três legoas: e a Vila do Vimieyro, que fica ao Sul distante duas legoas.
Não tem próprio termo, porque esta em termo de Aviz.
Tem a igreja parochial nesta aldea, cujo orago he Nossa Senhora da Graça a quem se
faz festa aos quinze de Agosto. He de huma nave so; tem quatro altares excepto o
mayor; dois são colateraes; os outros dois de lado. Os colateraes hum he de Nossa
Senhora dos Preses; outro de Santo Christo. Os de lado hum he de Nossa Senhora do
Rozario; e o outro das santas almas.
Tem as irmandades seguintes. A de Nossa Senhora da Graça: a do Santissimo
Sacramento a do Rozario, e a das Almas.
1 O número parece estar riscado.
O parocho desta freguesia intitulase capellão curado: he da apresentação de El Rey
como governador, e prepetuo administrador do Mestrado e Ordem de São Bento de
Aviz. Tem de renda dois moyos de trigo, e moyo e meyo de sevada pagos pela
Comenda de Aviz; e mais quinze mil reis em dinheiro pagos pello Almoxarifado de
Benavente; não tem beneficiado algum.
Tem esta freguesia duas ermidas que lhe pertencem: huma dentro da aldea, outra fora;
a que esta dentro intitulase de São Miguel; e nesta esta tambem huma imajem
prodigioza em milagres, que he hum Santo Christo de pedra. A que esta fora chamase
de São Bras, e ao seu dia concorre a ela muita gente em romagem; no mesmo dia se fas
ali no campo proximo a ermida hum mercado, o qual he livre. Esta ermida ainda que
pertence a esta freguesia com tudo esta em termo da Vila de Pavia.
Os frutos desta freguesia são algum trigo, sevada e senteyo, e bolotas, porque a mayor
parte della he charneca.
Não tem juiz ordinario, porque esta sugeita ao governo das justiças de Aviz, e
somente tem aqui na aldea um juiz chamado de vintena.
Não tem correyo; porem se he preciso valese do correyo de Aviz, que dista daqui
duas legoas. Desta aldea à cidade capital do Arcebispado distão sete legoas; e a cidade
capital do Reyno vinte e huma.
Padeceo ruina no Terramoto de 1755 a igreja parochial de Nossa Senhora da Graça e
a igreja ou ermida de S. Miguel; e posto que não foy muito concideravel, ainda se não
reparou, porque os moradores desta freguesia são todos pobres.
Tem esta freguesia dois rios pequenos, que se juntão ao depois em hum: ambos tem
seu principio no Campo do Ameyxial termo de Estremos: hum na Orta da Granja, e
chamase Almadafe Seco; o outro que se chama Almadafe Molhado principia à Fonte da
Talisca: vem estes dois rivulos unirse nesta freguesia por bacho da Ponte da Dourada e
com o nome de Almadafe vai continuando the os moinhos da Ribeira de Cabeção onde
morre, e finaliza: e não tem mais pontes que tão somente a da Dourada, a qual he de
pedra.
Correm do Nascente ao Poente; são arabatados em tempo de chuvas; e correm
somente no Inverno; e neste tempo crião alguns piscicullos chamados pardelhas, e
badalos.
No Almadafe Molhado esta hum moinho por bacho da Erdade das Barrochas desta
freguesia; e depois que a este se junta o Almadafe Seco tem mais dois moinhos hum
junto ao monte da Erdade do Tindeiro; e o outro por bacho da Erdade do Maronoto tudo
nesta freguesia; e desde o nascimento destes dois regatos the a ponte da Dourada aonde
se unem deitão duas legoas; e daqui the os moinhos os moinhos da Ribeira de Cabeção
onde finalizam outras duas legoas.
Sobre os mais interrogatorios que no papel se procurão não tenho que dizer cousa
algum [sic], e para asim constar me asinei Caza Branca 15 de Mayo de 1758.
O Parocho –Fr. Jozé Lopes Gracia
[Assinatura autógrafa]
Transcrição: António Carlos Paixão
Revisão: Fernanda Olival


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