Memórias Paroquiais

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São João Baptista, 1758, Junho, 11

Memória Paroquial da freguesia de São João Baptista, comarca de Vila Viçosa

[ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 6, nº 69, p. 485 a 486]

 

/p. 485/

Freguezia de São João Bautista termo de Sousel

1) Esta ezta cituada em hum canto do termo da Vila de Souzel a onde comfina

com o da Vis e de Fronteira.

2) He da adeministração do Excelenticimo Ordinario que a prezenta.

3) Tem vinte e seiis fogos, em que entrão muitos cazeiros que são moradores nas

herdades das quais seiis não tem moradores por não terem cazas, cujas

herdades humas eztão no termo de Avis e outras no termo de Fronteira

Bizpado de Elvas e outras no termo desta Vila de Souzel que dista da Igreja

meja [sic] legoa.

4) Tem duzentas e des pessoas; sento e outenta mayores e as mais menores.

5) O seu orago hé São João Bautista tem tres altares o Principal hé o do dito Santo

e os dois colatrais hum hé de Nossa Senhora do Rozario e outro das Almas não

tem Irmandade alguma senão somente algumas devosonis [sic] dos catolicos

que com suas ezmolas se festeja a dita Senhora e as Almas.

6) O Parroco [sic] hé cura que aprezenta o Excelentissimo originario tem de

rrenda tres mojos [sic] de trigo e sevada e desta são só trinta e sinco alqueires e

o mais hé trigo que são pagos pelos fregezes e deztribuição feita as herdades.

7) Os frutos que se colhem nesta freguezia he trigo e sevada e algum sentejo [sic]

e bolotas de azinho e sovoro//

/p. 486/

8) Dista esta freguezia da sidade Arcibiscopal de Evora, sete legoas, e de Lisboa

vinte tres legos [legoas] e não se avista desta freguezia povoação alguma.

9) Não padeceo ruina alguma no terremoto.

10) Corre pelo meio desta freguezia hum rio ao qual, chamão arribeira de Souzel e

tem dez moinhos que sinco eztão dentro na freguezia corre do Nazente para o

Poente prinçipio no termo de Estremos nele se crião peixes a saber bordalos

pardelhas e piconis e vai acabar sua corrente na ribeira da Vila de Avis por

bacho da Vila da Figueira e de Verão se seca por ser o seu nacimento de poucas

agoas tem dentro.

11) Tem o mesmo rrio dentro da freguezia huma ponte que está na estrada que vai

de Souzel para a Villa de Fronteira que toda hé de pedra de alvanaria.

E de tudo o mais que se comtem no extrato do papel não há nesta freguezia

couza alguma que se possa dizer nem fazer memoria do que se pertende saber

o que tudo mandei escrever e por mim vai asignado hoje 11 de Junho de 1758.

Cura o Padre Antonio dos Santos [assinatura autógrafa]

 

Transcrição: Ofélia Sequeira

São Bartolomeu, 1758, Abril, 10

Memória Paroquial da freguesia de São Bartolomeu, comarca de Portalegre

[ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 6, nº 60, pp. 411 a 414]

 

/p. 411/

Excelentissimo e Reverendissimo Senhor

São Bartholomeu

Termo Arronches

Comarca Portalegre

Dando execuçam do que Vossa Excelencia me manda darei resposta aos

interrogatorios de que tenho que fallar: digo que a freguezia de São Bartholomeu onde

sou cura actual he termo da Villa de Arronches filial e Matrix collegiada da mesma

Villa, pertence à Comarca; e Bispado de Portalegre esta na Provincia de Alentejo, como

tambem pertence ao Excelentissimo Senhor Bispo he datta sua = tem vinte e septe

herdades con seus moradores, cento, e sessentta pessoas de hum, e outro sexo = está

situada en hum altto, e tem duas portas a principal esta para o Poentte, e a outra

traveça para o Sul: della se descobrem tres povoaçoins, que sam aldeja de Santta

Eulalia que dista da freguezia hua legoa: outra a Villa de Barbacena que dista duas

legoas; outra a Villa de Arronches que dista hua legoa: o orago da Caza he São

Bartholomeu, o qual esta no altar mayor; tem mais dois altares collatrais hum

dedicado a Senhora da Victoria para a parte esquerda outra para a parte direita das

Almas; onde está hum Senhor cruxificado, e hum retabollo de São Miguel; he de huâ

nave o altar mayor de abobada, o mais da Igreja de tabique nam tem Irmandades, mas

so sim a devoçaõ dos freguezes en que fazem todos os annos sua festa: = tem o titallo

de Cura he a aprezentaçaõ do Excelentissimo Senhor Bispo como ja disse; tem de

renda tres moyos de trigo = ao nono = decimo = undecimo = duodecimo = naõ tenho

que dizer; ao decimo terceyro tem hua Igreja com o titallo da Senhora da Conceiçam

he Igreja particullar está en hum altto ao pe de humas grandes cazas, que tudo

pertence ao Maltes Dom Frej Rodrigo de Aguillar, está com toda a decencia, a Imagem

he notavelmente perfeitta, en o seu dia vem outo Maltes con toda a sua familia ouvir

missa na ditta Igreja = ao decimo quintto os fructos que se recolhem na dita freguezia

en muitta abundancia sam trigos; senteyos = sevadas, muittas creaçoins de animais, e

muntta abundancia de bolottas por ser toda povoada de azinho = decimo sexto =

decimo septimo = decimo outavo = decimo nono = vigessimo naõ tenho que dizer = ao

vigessimo primejro dista a ditta freguezia da cidade de Portalegre capital do Bispado

sinco legoas, e da cidade de Lisboa Capital do Rejno trinta legoas: nos mais

interrogatorios nam tenho//

/p. 412/

Tenho que dizer = ao vigessimo sextto alguma ruina padecen no terramoto enquanto

aos telhados que algumas rezao relançou fora, e outtras quebrou, que com pouco

custo se tornou a reedificar = do vigessimo septimo per digno de se fallar = con a ditta

Parochia de São Bartholomeu confina e ainda huma Xarneca a que vulgarmente

chamam = Xainça = a qual tera pouco mais, ou menos de comprimento huma legoa, e

de largura meja legoa, que vaj confrontar com a Ribejra de Abrillongo, que divide

Portugal, de Castella, e com outro e sitio que xamão = Refertta =no mesmo Rejno de

Castella = he a ditta = Xainça = povoada de varias capttas de matto, como sam éstevas

= resmaninho = alecrim = joina = medronheiras, e varias murtas = matto muito altto, e

muitto espesso = tem varios regattos de agoa no tempo do Inverno muito correnttes;

no mejo huma fontte por nome a fontte do Cortiço = que suposto seja pequena,

contudo por muito grande que seja a seca inda nam viram, que se secasse, anttes

sempre corre agoas para fora = he este sittio muito habitado de Bixaria, e nelle se criaõ

= javalis = veados = corcas = gamos = lobos = rapozas = gattos cravos = texugos =

coelhos, perdizes = e varias caças = que dizem vem para este sitio da mesma = Refertta

= com a mesma ditta freguezia confinam varios baldios que todos os annos se

repartem pellos moradores do povo, per pertencerem ao mesmo povo, de que os seus

moradores cultivaõ e fabricam e nelles colhem trigos, senteyos, sevadas, hum deles

lhe chamaõ o Baldio de Algalle fica no mejo de duas ribejras e neste se acha huma =

Atalaja = descortinando muita distancia; pello meyo destes Baldios passa huma ribeyra

que confina na a ditta freguezia a que chamao = Caya = a qual se lhe juntta outra a que

chamaõ = Algalle = e ambas se vam meter no rio = Guadiana = tem a ditta ribeyra Caya

= seu nascimento nas Serras de Alegrette = e he a ponte do Crato se chama Ribeyra de

Arronches, ahi se mette outra a que chamaõ = Caya = na ditta ribeyra se acha huma =

Ponte = por nome = Ponte Velha = cuja antiguidade senaõ sabe; porem se pensse fora

feitta no tempo, que os Romanos habitaram//

/p. 413/

Habitaram as Espanhas dizem fora feitta pello Emperador Trajano = com huma calçada

que se dis hia direitta a Madrid = que pella mesma freguezia se discobrem en algumas

parttes, muita parte da calçada: está a ditta Pontte = aruinada, que tam somente tem

tres arcos, e segundo parece era de extraordinaria grandeza; a factura della de pedra

de cantaria, e está por numero encaxando humas pedras en outras, sem que

houvessem materiais alguas, segundo se discobrem nos tres arcos, que ainda

prezentementte conserva, igualmente eran os alicersses a correspondencia da factura

da mesma pontte: passa a ditta ribeyra, como ja disse pello meyo dos baldios, nos

quais se acham algumas, fonttes que dificultozamente se secam; tem abundancia de

peixe = como saõ barbos = picoins = bordallos = e a major he de bogas = en varias

parttes desta ribeyra cultivam os curiozos de que colhem melancias, melloins = e

varios legumes = havendo en algumas partes hortas con seus arvoredos = nos mais

interrogatorios naõ tenho que dizer ; que a tudo me reporto, e por me ser mandado:

Arronches 10 de Abril de 1758.

Do Parocho de São Bartholomeu

Joseph Francisco Pereira [assinatura autógrafada]

 

Transcrição: Ofélia Sequeira

Santo António Velho, 1758

Memória Paroquial da freguesia de Santo António o Velho, comarca de Beja

[ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 4, nº 30, pp. 163 a 166]

 

/p. 163/

Excelemtissimo

Satisfazendo a vos Dezembargador d´Evora Excelemcia

No primeyro emterrogatorio

Fica esta freguezia de Santo Antonio Velho termo de Serpa na Provincia do Alentejo,

Comarca de Beja Bispado de Evora. No segundo hé donatario sua Meza de Deus

Guarde.

No terceyro os fogos sam vinte e seis pesoas sento e onze assim mayores como

tambem menores.

No quarto esta Igreja junto a hum valle e nao se descobre deste povoacão alguma.

No quinto nada.

No sesito [sic] esta esta Igreja fora da Vila meia legoa.

No setimo o orago desta caza hé Santo Antonio Velho tem tres altares hum de Santo

Antonio o segundo de Nossa Senhora terceiro de São Miguel.

No octavo o Parrocho da Igreja hé da aprezentacão do Senhor Arcebispo de Evora tem

de renda des quarteyres de trigo e trinta e oito de sevada.

No nono não tem beneficiado algum.

No decimo nada.

No undecimo nada.

No doudecimo nada.

No emterrogatorio treze nada.

No emterrogatorio quatorze nada.

No emterogatorio quinze os fruitos desta freguezia são trigos, sevada, senteios.

No dezaseis nada.

No dezasete nada.

No dezoito nada.

No dezanove nada.

No vinte nada.//

/p. 164/

No emterrogatorio vinte e hum dista esta freguezia doze legoas da cidade de Evora e

vinte e quatro da cidade de Lisboa.

No emterrogatorio vinte e dois nada.

23) Nada.

24) Nada.

25) Nada.

No emterrogatorio vinte e seis padeceo padeceo ruina em toda a Igreja esta reparada.

No emterrogatorio vinte e sette nada.

No segundo emterrogatorio

Não declara couza alguma porque esta pertence os parrachos de seu destrito.

No terceyro emterrogatorio

O rio que esta junto a esta freguezia chamase o Rio da Godiana he de curso caudelozo

corre todo o anno dizem nace [sic] das manchas de Aragão.

No segundo não declaro couza alguma por falta de noticia desta.

No terceyro nada.

No quarto e o rio da Godiana hé navegavel he o pego chamado Pul do Lobo.

No quinto hé de curso arrebatado com tempo de Inverno.

No seisto corre do Norte ao Sul.

No setimo a maior criação hé de barbos e saramugos.

No outavo e pescão a cana o são livres as pescarias.

No nono nada.

No decimo no lemite desta freguezia ha humas varges que se semesão [sic] algus

annos com lincença da Camram.

No emterrogatorioonze as agoas deste rio chamado Godiana são agoas para bainhos.

No emterrogatorio doze este rio sempre consarvou o nome chamado Godiana. E não

há memoria que tivera otro nome.

No emterrogatorio treze dizem hé certo que morre no mar. Junto o citio chamado o da

Mesquita.

No emterrogatorio quatorze nada.

15) Nada.

No emterrogatorio dezaseis tem tres fazendas de moinhos e hum pizão.

17) Nada.

18) Nada.

19) Nada.

/p. 165/

E hé do que poso dar noticia a Vosa Excelencia, a que Deus Guarde

Ao Parracho de Santo Antonio Velho termo de Serpa

O Padre Jozé Mestre [assinatura autógrafa]

 

Transcrição: Ofélia Sequeira

Santo António das Areias, 1758, Maio, 10

Memória Paroquial da freguesia de Santo António das Areias, comarca de Portalegre

[ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 4, nº 64, pp. 353 a 362]

 

/p. 353/

Excelentissimo e Reverendissimo Senhor

A freguezia de Sancto Antonio das Areas, de que sou cura actual comprehende o

termo da Villa de Marvã para a parte do Nascente e tem sua Parrochial Igreja, sita no

mejo da freguezia, distante meja legoa da sobredita villa e duas legoas e meja da

cidade de Portalegre, capital deste Bispado, e Comarca na Provimcia do Alemtejo, esta

situada, em hũ outeiro baixo e largo, chamado os outeiros de Sancto Antonio das

Areas sem povoaçã algũa, ao pe; mais que hũa caza em que vive o ermitãda mesma

Igreja;

Compoece [sic]esta freguezia de ojtenta e seis fogos ou cazais, em que habitaçã

trezentas e sincoenta e tres pessoas, e todas estã dispersos pello distrito da mesma

freguezia = os montes mais avultados, que hoje se achã nella he o dos Barrettos em

que vivem, vinte e sinco vezinhos, com suas famillias, que se compoem de noventa e

ojto pessoas, das quais sã sesenta e nove majores, e vinte e nove menores, o da

Ranginha em que vivem dezasete vezinhos, cujas famillias se compoen de setemta

pessoas, trinta e nove majores, e quarenta hũa menores; o dos Cabesudos que tem

treze vezinhos com sin//

/p. 354/

Consincoenta [sic] e sete pessoas, trinta e sinco majores e vinte e duas menores, e

todos estes estã pouco distantes da Igreja Parrochial, para a parte do Norte; e para a

parte do Sul se acha o Monte Daseiseira [sic] com seis cazais, em que vivem vinte e hũa

pessoas, a saber, dezasete majores e quatro menores, e tambem fica este monte,

pouco distante da Igreja Parrochial e todos os sobredittos se achã formados por entre

grandes penedias; e todos tem fontes munto abundantes de agoa com suas ortas e

pumares, e todos os mais cazais estã dispersos, pello distrito da freguezia que do Norte

ao Sul tem de comprimento hũa boa legoa, e do Nascente ao Poente outra em cujo

sircuito, se achã demolidas grandes quantidades de cazais principalmente no sitio da

Comenda, Ajres, e Vidais, aonde antigamente havia grandes moradias, que por falta de

gente senã redeficã nem habitã.

Da Parrochial Igreja desta freguezia he orago o Senhor Sancto Antonio, cuja Imagem se

acha feita com toda a perfeisam e situada em hum nicho do retabolo do altar major o

qual todo he de madeira e esta ornado de excelentes pinturas e sito na Capella mor,

cujo tecto he de abobeda e tem no arco suas grades de pao razas//

/p. 355/

Esta Igreja he de huma so nave, e juncta a Capella mor para a parte da episttolla tem

huma Capella de abobida toda pintada, com seu altar de retabollo de madeira

dourado, e no mejo hum nicho com a Imagem de Nossa Senhora dos Remedios ornada

com toda a perfeissã e no arco da Capella suas grades de pao razas, da parte do

Evangelho em sua Sancristia com a porta, para a Capella mor, e juncto a ella huma

torre com seu sino cuja entrada he pella mesma sancristia, e na mesma esta a emtrada

para o pulpito que he de pedra e do mesmo lado se acha a Capella do Batisterio junto

a huma porta principal, que fica para a parte do Poemte e para a parte do Sul tem a

mesma Igreja hũa porta travessa pequena, o Parroco desta Igreja he cura decleisã [sic]

do Excelentissimo e Reverendissimo Senhor Bispo com aprezentassam de pessoa

alguma nã sem mais renda do que dois mojos de trigo para os quais lhe da cada hum

dos Priores da Villa, quinze alqueires e para mojo e mejo se fas distribuisam [sic] pellos

freguezes e a Igreja nam tem rendimento algum, e he fellial das duas da Villa, por cuja

couza se pagam a ambas todos os dezimos do distrito desta freguezia que he munto

abundante de pam e frutos//

/p. 356/

Em distancia de tiro de balla desta Parrochial Igreja para a parte do Poente se acha a

Ermida de Sam Marcos que he de huma so nave e tem huma pequena capella em que

se acha o altar, com seu retabollo de madeira dourado, e no mejo hũ nicho com a

Imagem do dito Sancto, e tem a porta principal para Norte, e huma pequena para o

poente com distancia de hum quarto de legoa para a mesma parte do Poente dentro

dos couttos da Villa de Marvã se acha a Ermida do Senhor Sam Pedro que he pequena

e tem hum altar com seu retabollo de madeira pintado e no mejo hum nicho com a

Imagem do dito Sancto e no mesmo retabollo se acha pintada a Imagem de Sancta

Marta á qual se fazem muntas romagens, das povoasoins sircumvezinhas por todo o

discursso do anno, tem esta Ermida a porta o Poente, por sima da qual tem outra

Imagem do mesmo Sancto feita de pedra e para a parte da episttolla pella parte e fora

hũ pulpito feito de pedra ambas sam felliais desta Parrochial Igreja, e nenhuma em

rendimento algum//

/p. 357/

De Marvam que todos os annos costuma vender hum delles em prassa publica; e outro

o dam de grassa para os moradores da dita Villa e termo uzarem delle e no distrito

desta freguezia nam ha Serra alguma mas he munto fragoza e cheia de grandes canxos

por emtre os quais se criam muntos pastos com que se sustemtam, muntos rebanhos

de gados, para os quais os costumam comprar seos donos aos deputados do povo da

Villa de Marvam e remdem avultados pressos, o que se dispendem nos partidos do

medico surgiam boticario mestres de latim e da escolla da dita villa e com os

pregadores das tardes da Quaresma e do triduo das quarenta horas, e outras obras

pertemsentes ao bem comum do povo.

Tem esta freguezia Juis e escrivam da ventena elleitos pella Camera da sobredita Villa

esogeitos a jurisdissam da mesma e dista da cidade de Lisboa Capital do Rejno trinta e

seis legoas e confina com o Rejno de Castella e no distrito desta freguezia se acha

huma fonte no sitio de Maria Viegas para a parte do Norte perto do termo de Castello

de Vide que mostra correr minaral de enxofar segundo o seu gosto e cheiro, chamada

Fedagoza a qual se vem buscar agoa de muntas terras e tem vindo pessoas de terras

distantes a tomar banhos//

/p. 358/

Da parte do Sul da Villa de Marvã[o] por sima da Ponte Velha, aonde esta freguezia se

divide de huma das da Villa de Marvam e a da do Salvador e dos distrito dos Galegos

que tambem era freguezia distinta, antes da guerra daclamassam [sic], e hoje se acha

unida as duas da Villa por alternativa emtra no distrito desta freguezia a Ribeira de

Marvam a qual se chama o Rio de Sever e tem seu nascimento na sobredita freguezia

do Salvador vaj correndo para a parte do Nascente sempre por entre grandes

penhascos munto arebatada por espasso de hum quarto de legoa, dividindo o destrito

desta freguezia da dos Galegos e he onde chamam a Nugueira do Cabral e neste

espasso, tem sete moinhos e so hũ nam moe ao prezente por ter alguma roina e tres

pizoins situados no destrito dos Galegos e mais hum moinho e neste mesmo espasso

tem ojto asudes para todos os sobreditos emgenhos, e logo que entra no distrito desta

freguezia tem huma ponte com hum arco grande athe o qual tempo hera de madeira e

tem outro arco pequenode alvenaria, e por sima seos bordos da mesma tem bastante

altura e esta formada, sobre dois canxos [sic], por cuja cauza tem as para serventia e

em todo este espasso tem a dita ribeira munto pouca vargem, e he munto//

/p. 359/

De peixes e trutas no mejo deste espasso aonde chamam o Pego do Ferreiro, entra

nesta ribeira, o Ribeiro dos Gallegos, munto abundante de agôa, qual numca seca e

cria tambem peixes especialmente trutas, tem seu nascimento na serra fria, de fronte

de humas penhas grandes chamadas da esparoeira e corre pello Monte dos Galegos,

junto ao qual tem hum despenhadeiro munto grande demais de vinte palmos de

altura, e cahe para hum fundo posso chamado Adorna, aonde tambem se criam boas

trutas e daqui com cursso arebatado para o Nascente se vem meter na dita Ribeira, e

esta do sitio da Nugueira do Cabral principia a fazer volta para Norte e por espasso de

mais de hum quarto de legoa corre munto percipitada por emtre grandes penhascos

dividindo o Rejno de Castella, da parte do qual tem seis moinhos e hum pizam, de que

se servem os moradores da Villa de Vallemsa, e para estes todos tem seos asudes, com

grandes peguias e chegando no sitio do Cavallo corre emquanto nam ha grandes

chejas, em distancia de tiro de espingarda por de baxo de humas grandes penedias

sem se ver agoa a mais a baixo se acha huma pedra que atrevessa a Ribeira de hum

lado a outro e aguda por sima a que chamam o Cavallo, de baxo da qual//

/p. 360/

Passa toda agoa da dita Ribeira e daqui para baixo vaj comcursso mais brando por

terra mais plana e dividindo sempre os Reinos e tem boas vargens em que se sameam

grandes feijoais trigo e melanciais the ao fundo da erdade dos Pombais e pasando

desta torna a tomar cursso mais arebatado, por entre fraguis, munto arebatados the

dar ao Porto dos Cavaleiros, aonde emtra nella o Ribeiro do Val do Cano munto

abundante dagoa [sic], o qual divide o destrito desta freguezia e termo da Villa de

Marvam com o de Castello de Vide o qual Ribeiro tem seu nascimento no termo de

Castello de Vide e em todo o sobredito espasso lhe emtram dentro varios ribeiros, que

nascem no destrito desta freguezia e esta ribeira em todo o destrito desta freguezia he

munto abundante de peixes e trutas, e tem munto arvoredo silvestre de huma e outra

parte e se extende por mais de huma legoa com a sua corrente, que se emcaminha

para o Tejo, no qual emtra no no termo de Montalvam, depois de se ter emcorporado

com Rio de Alburrol.

No destrito desta freguezia emtre a fonte de que asima se fallou, e ribeiro do Val do

Cano, se acha o sitio a que chamam Torre do Azinhal, aonde hera a cidade de

Medrobega da qual ha inda vestigios grandes que sã alicerses de cazas e parte de

huma torre grande com hum arco e todo o terreno esta hoje reduzido a terras em que

se semea pam e se tem tapado muntas dellas//

/p. 361/

Da destruisã desta cidade nã achei noticia por ser munto antiga, mas parese foi

tambem habitasã de gentios estava formada em huma meja costa para a parte do

Nascente e porto da Ribeira sobredita que lhe fica a vista e dentro da situasã da dita

cidade se acha inda hoje hũa fonte de cantaria bemfeita.

Por todo o destrito desta freguezia sã livres as pescarias na sobredita ribeira em todo o

anno na parte que divide os rejnos, por serem suas agoas, comuas, para ambos, e

tambem se regã as vargens com a mesma agoa, sem que se pague pensam alguma.

Estas sã as noticias com que poso dar a Vossa Excelencia e Reverendissima a

informassam que me ordenou, e em tudo mais cudarei em não faltar a obediencia que

devo a Vossa Excelencia Reverendissima que Deus guarde muitos annos, Sancto

Antonio das Areas 10 de Majo de 1758.

De Vossa Excelencia Reverendissima

Subdito e humilde venerador

O Cura de Sancto Antonio Manoel Moratto Sanches [assinatura autógrafa]

 

Transcrição: Ofélia Sequeira

Santo Amaro, 1758, Maio, 17

Memória Paroquial da freguesia de Santo Amaro, comarca de Avis

[ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 3, nº 62, pp. 487 a 490]

 

/p. 487/

Do cura da freguesia de Santo Amaro termo de Veiros

Pelo Ilustrissimo e Reverendissimo Cabido deste Bispado de Elvas me foi mandado

responder aos emterrogatorios apensos no termo e tempo de dois meses, e por ser o

dito tempo da quaresma ocupado e não fis e agora em virtude do dito mandado

respondo na forma seguinte:

1) Que a freguesia de Santo Amaro termo da Vila de Veiros fica no Bispado da

cidade de Elvas, na Comarqua de Avis, e he filial a Matris da dita Vila de Veiros.

2) Que a Igreia do Santo Amaro desta dita freguesia he da Ordem de São Bento de

Avis apresentada pela Menza da Conciencia quanto ao beneficio e quanto ao

curativo he da aprovação do Ordinario do dito Bispado de Elvas.

3) Que tem pesoas de confição duzentas e sincoenta e nove, almas duzentas, e

fogos setenta e outo.

4) Que a dita Igreia de Santo Amaro esta situada em hua planicie junta ao ribeiro

chamado do Lupe, e dela senão descobrem povoaçoens algumas.

5) Que não tem termo seu por ser somente freguesia de campo, e do termo da

Vila de Veiros parte, e parte da Vila de Fronteira e não tem lugares de nome,

mais que tam somente huns montes juntos, a que chamão Aldeia de Santo

Amaro, que consta de deseseis vezinhos.

6) Que a Parrochia de Santo Amaro está fora da Vila de Veiros em distancia de

hua legoa para a parte do Poente.

7) Que o Orago desta dita Igreia he Santo Amaro imagem muito antigua muito

pequena. mas de aspecto fermozo e sem braços e deste modo he tradição em

memoravel que fora por hu[m] ganadeiro de gado achada naquela sitio aonde

se lhe fandou [fundou] a Igreia que erão matos fortes e emtricados, e ainda

hoje se acha com hua a dita imagem com hua festimenta de linho tão junta e

pegada a si, que se lhe não pode tirar//

/p. 488/

Tirar nem por modo algum descoser e tambem é tradição que querendo tirar a

dita Imagem o dito vestido se lhe fes empossivel o intento for Imagem com a

qual os moradores da Vila de Veiros e todo o seo termo, e da Vila de Fronteira

e especialmente a Prasa de Estremos do Arcebispado de Evora tinhão uita

devoção e vesitação de sua caza com frequentes romagens e ofertas de sera e

trigos e ainda hoje na sua Igreia ha hua balança em que os romeiros se pesavão

o trigo, e as cazas, aonde hoje he morador o Ermitão junto a Igreia he tradição

certa que forão fundadas pelos romeiros, que vinhão vesitar a dita Imagem da

Praça, e cidade de Evora porem ja hoje não ha frequencia algua nas ditas

romagens, e somente no dia quatorze de Janeiro acode muita gente das terras

e termo circonvezinhas por ser o dia em que se lhe fas a sua festa e he a sua

Igreia [sic] de hua nave, e tem capela mor em que está colocado o dito, orago e

tem quatro altares colatrais e vem a ser hu[m] de Nossa Senhora do Rozario;

outro do Santo Christo e Almas ao lado esquerdo ao lado direito hu[m] do

Santo Menino, e outro de Santo Antonio, e não tem Irmandade algua.

8) Que o Parrocho he Cura da Apresentação de El Rei como fica dito e tem de

renda sento e outenta alqueires de trigo e sesenta, de sevada, que pagão os

mesmos freguezes cada hu[m] sua porção pelas erdades e os cazeiros cada

hu[m] alqueire cuja porção he chamada bodo, que por contenção, que fizerão

tresi [sic] os mesmos freguezes se obrigarão a satisfacer [sic] annualmente ao

Parrocho, e terá de renda do benece sincoenta mil reis pouco mais ou menos.

9) Deste nada, nem do 10, nem do 11, nem do 12.

13) Que tem na distancia da Igreia hu[m] quarto de legoa pouco mais ou menos

para a parte do Nascente hua Ermida filial a dita Igreia de Santo Amaro da imvoção

desta Maria Magdalena aonde, se costuma celebrar missa quando algum devoto

amanda dizer, e he Ermida muito pequena muito pobre, e de hu[m] altar só.

14) Que alguns devotos costumão vesitar a Imagem desta Ermida co alguás//

/p. 489/

Com algumas ofertas.

15) Que as terras da freguesia são cultivadas pelos lavradores siareiros e

trabalhadores e os frutos, que em mais abundacia colhem hé trigo e cevada e

legumes, e em especial de hum sitio chamado o Paso da Alvarinha, que são terras

de barro forte.

16) Que os freguezes desta freguesia estão sogeitos parte deles ao governo da

justiça e juizo geral da Vila e outra parte ao da Vila de Fronteira por serem

moradores no seo termo.

17) Deste nada, nem do 18, nem do 19 nem do 20.

21) Que a dita freguesia de Santo Amaro dista da cidade de Elvas seis legoas que he

a capital do Bispado da Vila de Avis, que a capital da Comarqua, e vinte e tres da

cidade de Lisboa, que he a capital do Reino.

22) Deste nada, nem do 23, nem do 24 nem 25.

26) Que no terremoto de 755 não padeceo a dita Igreia [sic] de Santo Amaro ruina

alguma ainda que se acha de presente muito arruinada, e os tilhados muito

demolidos, o que tem sucido [sucedido] tractos temporais e por não haver davoção

para este effeito nos freguezes estando elles obrigados ao seo ornato e reparos

nem zelos nos Parrochos que athe agora tem servido.

27) Que pelos lemites da freguesia corre hua Ribeira chamada da Analoura junta

com a da Alcaravissa aquela tem o seo nascimento na freguezia de São Domingos

do termo da Praça de Estremos e esta junto aos Coutos da Vila de Borba, e corre

para o Poente e se ajunta com a de Fronteira da qual toma muito peiche, e de sua

criação he fertil deles especialmente de bordalos de bom gosto.

E por não haver mais de que possa responder com evidencia certa me asignei

sendo aos de 17 de Mayo de 1758.

O Cura Emcomendado Joze Martins [assinatura autógrafa]

 

Transcrição: Ofélia Sequeira


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