Memórias Paroquiais

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1758 Junho 19 - Torre de Coelheiros
Memória Paroquial de Torre de Coelheiros, Évora
[ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 37, nº 74, pp. 653 a 658]

Satisfazendo a ordem de Vossa Excelência direi o que a minha deligencia poude
alcançar no breve tempo, que tenho asistido como em comendado nesta freguezia. A
Igreja de Nossa Senhora do Rozário da Torre dos Coelheiros(1), termo da cidade de
Évora, distante della três legoas, três da Villa de Portel, duas e meya de Vianna, huma
da aldea de Sam Manços, outra de Montte de Trigo e vintte da capital deste Reyno. He
Padroeyro della Diogo Xavier de Mello Cogominho, Senhor da ditta Torre e Solar da
Caza de Cogominho. Foi fundada, e eregida em Parrochial no tempo do Concilio
Tridentino(2) no anno de 1535 no reynado do Rey Dom João treceyro por duas Bulias
Ponteficias do Santissimo Padre Paulo treceyro da feliz recordação concedidas à
instância de seu ceisto avô Nuno Fernandes Cogominho.
Por virtude das quais hé a aprezentação desta igreja dos Senhores da ditta Torre e
Morgado, os quais “ad libitum” podem anualmente pôr e remover o parracho, por ser
“ad carum nudum”, como seria das ditaz Bullas: Déllas consta que o parracho he
puramente hum capelão, aquem seguindo o costume desta Provincia chamão
regularmente Prior como no Minho aos priorez com a mesma equivocação intitulão abades. Sobre o direyto e posse desta sua aprezentação tem havido em diverços tempos
varios pleitos, mas tem sido sempre todos sentenciados a seu favor contra os Senhores
Arcebispos de Évora, e parrachos removidos, de cujas sentenças por serem extenças não
remeto as cópias, o que farão sendo previsto. A Corographia Portugueza tras lotado o
seu rendimento em duzentos mil reys.
Tem esta igreja(3) três altares o mayor he de Nossa Senhora do Rozário (que hé a
invocação da ditta Igreja) e actualmente se lhe estão fazendo em Évora hum retabolo
com a mayor decencia que pode adimitir o ambito da Capella, para cujo efeito manda o
Padroeyro acrescentála (não abestante tella feito ha quatro annos a fundamentis) por se
achar a antiga sumamente aruinada com o tempo. Fica a Senhora em hum trono
levantado em quatro colunas, e revestindo todo o retabolo as quatro imagens do
gloriozo Doutor da Igreja Santto Agostinho, Sam Miguel, Sam Matheus, e Santo
Estapino adovogado da gotta. Ao lado do Evangelho está a cadeyra do Padroeyro,
abayxo do Presbitério comformandoçe nesta parte com cerimonial romano. E da parte
da Epístola está a boca de huma tribuna em que asiste aos officios Divinos a Sua
família. O cruzeyro está todo debayxo de hum zimbório com quatro ganellas
porporcionado tudo a altura da Igreja // (Da Igreja) que tambem mandou fazer o
Padroeyro á quatro annos: nelles estão os dois altares colatterais à face da mesme Igreja.
Em hum está colocada a Imagem de Nossa Sanhora da Asumpsão e Santa Maria
Margarida, no outro a de Nossa Senhora do Rozário (a pequena Imagem de grande
devoção), Santo António, Santo Amaro e Sam Braz.
As armas, que neste templo se achão são as dos Cogominhos(4) seus fundadores não só
em varias pedras antigas mas também pintadas a fresco na abobada da capela mor
seguindo nesta parte a idea da Igreja, que toda se acha pintada nesta forma: as pedras
dos escudos mostrão em si sinco chaves mouriscas de prata postas em aspas em campo
de sangue. Na capella mór está huma campa de pedra mármore com sinco chaves e este
letreyro: Sepultura dos filhos de Nuno Fernandes Cogominho, que fez de novo esta
Igreja falecerão na era de mil e quinhentos e sincoenta e quatro annos. No adro a
entrada do alpendre estão duas sepulturas de marmore mas sem armas, o letreiro de
huma não se pode ler por estragado, e a outra diz: sepultura de Marcos Affonço e de
seus herdeiros. E não se achão mais letreiros nesta Igreja por serem todas as mais
sepulturas de adôbes.
O ditto Nuno Fernandes Cogominho fundador, e primeyro Padroeyro desta Igreja viveo
alguns annos em Évora, e muntos nesta Torre. Era filho de Fernam Gonsalves
Cogominho, netto de Nuno Fernandes Cogominho, bisneto de Gonçalo Mendes
Gogominho, treceyro netto de Mem Fernandes Cogominho, quarto netto de Dom João
Fernandes Cogominho, em quem acaba o Conde Dom Pedro o título dos Cogominhos, e
foy o terceyro Senhor de Aguiar e Oriola, alcaide mor de Évora e ceisto netto de
Fernam Gonsalves Cogominho senhor das dittas villas, meyrinho mór, copeiro mór, rico
homem e grande valido do Rey Dom Affonço o quarto, com quem se achou na batalha
do Salado; instituidor deste morgado, o qual Fernam Gonsalves Cogominho está
sepultado na Igreja de Sam Francisco dessa cidade de Évora no magnifico túmulo dos
Cogominhos na sua capella do Espírito Santo, que hé a primeyra à mão // direita quando
se entra pella porta da Igreja e tem este letreyro: - Aqui jás o munto honrrado Fernando
Gonsalves Cogominho Senhor que foi das Villas de Aguiar e Oriola, instituidor do
morgado da Torre dos Coelheiros fidalgo de El Rey Dom Affonço o quarto - faleceo na
era de mil e trezentos, e secenta e quatro.
Os livros que se comservão dos Baptizados, Cazados, e Obitos principiarão no anno de
mil quinhentos, e secenta e quatro. Tem huma comfraria de Nossa Senhora do Rozário,
da qual são juízes perpétuos os padroeiros. Estas são as notícias, que poço dar a Vossa
Excelência desta Igreja, e deste morgado se acham no Real Archivo da Torre do Tombo,
em cujos rezistros se acha lançada a sua instituição, e copiados os seus previlégios de
coutada comcedidos pellos senhores Reys Dom Pedro Primeyro, e Dom Fernando
comfirmados por todos os Reys de Portugal seus suseçores e prezentemente pella
clamentissima bondade de nosso augustissimo soberano, o senhor Dom Jozé primeyro,
a Diogo Xavier de Mello Cogominho, com a clauzola, de que tanto se honrrão os
senhores deste morgado, de que faltando a sua descendência não paçe o morgado a
Corôa, mas que se instituão tantas capelas, quanto poder chegar o seu rendimento, e que
se digão diariamente estas missas pella alma do Senhor Rey Dom Affonço, o quarto.
Talvez e na memória daquela emcomparável honrra de ficar este monarcha por fetor, e
testamenteyro dos filhos do Almeyrante Nuno Femandes Cogominho como diz Brandão
na Monarchia Luzitana tom 50 Livro Cap. 17.
Sendo que a Torre dos Coelheyros excede monto em antiguidade a todas estas
memórias, pois não se lhe sabendo princípio se sabe que era senhor della Pedralvez
Cogominho // que se achou com Giraldo Pestana o Sem Pavor na tomada de Évora, e
levou a coimbra as chaves das sinco Portas daquela praça a El Rey Dom Affonço
Henriquez que lhas deu por armas; e por seu respeito e interseção perdoou a Giraldo, e
seus companheyros, como escreveo Brito na Cheronica de Cister primeira parte, livro
primeiro cap. treze folhas trezentas, e dezasete; Villas Boas na Nobliarchia Portugueza e
outros muntos. O mesmo historiador na segunda parte da Monarchia Lusitana folhas
cento e sinco, insine citando e seguindo ao Mestre Andre de Rezende sóbe de ponto esta
antiguidade nestas formais palavras.
Entre os primeyros, que forão reconhecidos por christãos e dadas em memorial ao tirano
foy o gloriozo Santo Vicente, mancebo nobre, natural daquela cidade, e sem ter André
de Rezende, que durão hoje seus descendentez com o sobrenome de Cogominhos, os
quais viverão naquela cidade em tempo dos mouros sempre respeitados, e havidos por
gente nobre, e antiga, e sendo asim não prova pouca nobreza, quem mostra ter
ascendentes illustres a mil, e trezentos annos.
Hé esta Torre(5) entre as quais estão no campo fora das cidades, ou praças de armas a
mais forte, e mayor desta Província. Está cituada em hum alto della se descobrem vários
lugares de Portugal como são Monçaráz, Trena, Landroál, Portel, Évora cidade, Évora
Monte, Monte de Trigo, toda a Serra de Ossa pella parte de Sul, parte da Serra Morena
em Hespanha. Por sima hé toda cercada de ameyas, e com huma atalaya pella parte de
fora. Comprehende em sy várias cazas em três andares, ou pavimentos. Diogo Xavier //
(Diogo Xavier) de Mello Cogominho a tem aumentado e em nobrecido notavelmente,
acrescentandolhe hum quarto, que corre para a parte do Nortte e remata no um com
outra torre de igual altura que antigamente com tal fortaleza pellas muntas linhas de
ferro com que a forteficou, que não sentio ruina com cideravel no terremoto do primeiro
de Novembro de mil e sette centos e cincoenta e sinco. Actualmente se acha ajuntando
os matriais, quebrando pedras, fazendo fornos de cal e ladrilho para entrar este anno a
fazer para a parte do Sul outro quarto. Com respondente a este ficando no meyo huma
nobilissima escada de pedra mármore em dois lanços, a que com responde hum patio de
cecenta paços em quadra, temdo já em canado a agoa de huma copioza fonte por hum
aquedutto subterranio para dois tanques, e deste pasava para, hum lago com huma
cascata, em que finaliza a quinta pavoada de muntaz frutas, com huma rua, que vay
parar no meyo do lago, em que cabem dois coches à vontade, e tem sette centos paços
de comprido.
O território desta freguezia produz bastante trigo, sevada, senteyo, e grandes montados
de azinho, e sovro. As pastagens, ainda que não sejão as mais abundantes todavia são de
excelente qualidade para os gados; e seposto, que o ditto morgado tem mais de huma
legoa de comprido a sua freguezia se extende com mayor ambito comprehendendo fora
do ditto morgado algumas herdades, e tem ao prezente sincoenta vezinhos e athe
trezentas pessoas de sacramento.
Nesta freguezia da Torre dos Coelheyros nas terras do morgado aonde chamão a
Defeza de baixo ha hum sitio todo cheyo de minas e alicerces de cazas e muros em larga
distancia, e hums paredoens a que chamão a Mesquita(6), dentro das quais minaz se achão
grandissimas azinhevras; corre por elle huma ribeyra chamada dos Degolados depois de
aver corrido, e paçado por hum valle do mesmo nome. Tem por trasdirção [sic] os
senhores desta torre, que seus ascendentes (expuna) // expugnarão aquela terra, e
ganharão aos mouros; e que desde aquele tempo ficara áquele valle e ribeyra o nome
dos Degolados.
Porem disto não há mais certeza, que huma verossimilidade por no ser defilcultoza que
huma família, que teve parte tão principal na conquista de Évora, e de outras muntas
terras deste Reyno, e de Hespanha, como teve do Conde Dom Pedro, títolo trecevro. E
afirmão gravissimos historiadores destrohice aquela povoação e ganhacem a seu
território estando tão perto da sua torre. O que se acredita porque tendo, como fica ditto,
as terraz que os Cogominhos pesuem nesta freguezia mais de uma legoa de extenção, e
mais de quatro de circumferencia sem títolo de herança, compra, robrogação, doação ou
qualquer outro, são senhorez delas desde aquele tempo immemorial.
Isto he, o que posso informar a Vossa Excelencia a quem Deos guarde muntos annos
para amparo da pobreza, creditto de Potugal e exzemplar dos prelados. Torre dos
Coelheyros 19 de Junho de 1758.
O Padre Joseph Gomes Saramago

(1) Torre de Coelheiros: Freguesia rural do Concelho de Évora. O principal núcleo populacional e sede de freguesia é Torre de Coelheiros.
No séc. XVIII, S. Jordão, S. Bento de Pomares, S. Marcos da Abóbada e Torre de Coelheiros constituiam
freguesias autónomas; de 1911 a 1930, Torre de Coelheiros esteve anexada a S. Marcos da Abóbada, mas
em 1936 (DL n°. 27 424 de 31 de Dezembro), foi novamente dexanexada e ficou autónoma; em 1946 (DL
n°. 35 927 de 1 de Novembro) as três primeiras deixam de existir e passam a integrar a freguesia de Torre
de Coelheiros.
Área: 22 623 ha.
População presente: 802 hab. (Censos 1991)
O seu nome deriva da Torre construída pela família dos Cogominhos; é das aldeias mais antigas do
concelho de Évora, havendo prosas documentais da sua existência já em 1357, quando é constituido o
morgado da Quinta da Fonte dos Coelheiras.

(2) Concílio de Trento: “Décimo-nono Concílio ecuménico, convocado pelo Papa Paulo III. Abriu em 1545 e concluiu os seus trabalhos em 1563. Foi a necessidade de uma reforma na Igreja e a perturbação lançada nos espíritos pelas heresias de Lutero que determinaram a convocação deste concílio. Paulo III escolheu a cidade de Trento, situada no Tirol, porque ficava a meia distância da Alemanha e da Itália e parecia satisfazer os que recusavam um ou outro destes paises. Todavia, os protestantes, embora convidados com plena liberdade de discussão, não quiseram comparecer.” - Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira,
Vol. XXXII, pág. 719b)

(3) Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Torre de Coelheiros: o actual templo, embora profundamente modificado, conserva a fachada e o corpo da nave da época da fundação, que se deve a Nuno Fernandes Cogominho, no ano de 1554. A portada principal tem molduras renascentistas e o altar é barroco possuindo uma interessante escultura de Nossa Senhora do Rosário, datada do séc. XVII. No seu interior merece destaque a pia baptismal quinhentista, dois bancos de madeira trabalhados do séc. XVIII, estatuária, pintura, alfaias religiosas e alguns ex-votos populares do séc. XIX.

(4) Solar dos Morgados Cogominhos: Teve origem em meados do séc. XIV, quando foi construído o paço acastelado de Fernão Gonçalves Cogominho. Nos sécs. XVII e XVIII acrescentaram-lhe dois corpos laterais “com frente regular de dez janelas, cindo por banda de entrada, sobre dupla escadaria de granito. “Os primeiros Gogominhos comtenteram-se com a tôrre; depois fizeram alas só com pavimento térreo, no começo do século XVI ergueram o segundo pavimento só para salões” - Gabriel Pereira, Estudos Diversos, pág. 192. Em 1957, já em avançado estado de degradação, este edifício foi doado à CME pelo seu último proprietário, João Antonio Lagartixa, ficando então estipulado que as ruinas do edifício, devidamente restaurada sob planos a aprovar pela Direcção Geral do Monumentos Nacionais, seria destinado a edifício escolar, junta de freguesia e casa do povo.
Está classificado como “Imóvel de Interesse Público” - DL 41 191, de 18/7/1957.

(5) Existem neste local abundantes vestígios romanos, que ainda não foram alvo de estudo arqueológico, nomeadamente nos lugares denominados “Casarão da Mesquita”, “Atafonas” e “Atafoninhas”. É interessante e muito significativa a descrição destas ruinas apresentada por Mário Sá, As grandes vias da Lusitânea, Livro XIV, pp. 15-16, 53-56.

(6) Sobre a genealogia da Família Gogominha veja-se, por exemplo: A. F. Barata, Évora e seus arredores.
pp. 41-44.


Transcrição: Maria Ludovina Grilo
Revisão: Francisco Segurado


GRILO, Maria Ludovina B. – O Concelho de Évora nas Memórias Paroquiais de 1758
(Conclusão). A Cidade de Évora. Évora: Câmara Municipal. 2ª Serie, nº 1 (1994-95),
pp. 89- 156.

1758 Junho 21 - Sé 
Memória Paroquial de Sé, Évora (Em 1997 a freguesia de São Pedro foi extinta, sendo anexada à freguesia da Sé, passando ambas a constituir a nova freguesia da Sé e São Pedro.)
[ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 14, nº 111, pp. 807 a 824]

Resposta aos interrogatorios que por ordem do Excelentissimo e Reverendissimo
Senhor Arcebispo se me entregarão para responder a elles pelo que dis respeito a
freguezia da Sé desta cidade da Paróquia de que sou parocho.

1°. interrogatorio
Em que Província fica, a que Bispado, Comarca, termo, e freguezia pertence?
R. No centro, ou coração da fertellissima Provincia do Alentejo, está cituada a muito
antiga, e illustre Cidade de Evora segunda deste Reyno nos privilégios, e regallia,
Metropole do Arcebispado do seu nome, e cabeça da sua comarca, e da de Estremos.

2º. Interrogatorio
Se he de ElRey ou de Donatário, e quem o he ao prezente?
R. He de ElRey

3° interrogatório
Quantos vizinhos tem e o numero das pessoas?
R. No auge da sua grandeza contou Evora de des athe quatorze mil vizinhos; hoje
porem com a auzencia da corte, e outras fatalidades tem pouco mais de quatro mil com
doze athe treze mil pessoas(1).

4°. interrogatório
Se está situada em campina, valle, ou monte; e que povoações se descobrem della, e
quanto distão?
R. Em altura de 38 graos e 30 minutos em huma colina tão pouco levantada, que mal se
percebe a subida, e tão proporcionadamente alta, que se descobrem della quatro e sinco
legoas de fertis, e dilatadas campinas, terminandoce // a vista pela parte do nascente, na
villa de Evoramonte e memoravel Serra de Ossa, distante sinco legoas; pella do Sul na
Villa de Viana do Alentejo, e Serras de Portel e Alcaçovas distantes outras sinco; e pela
do Norte e Poente na Villa de Arrayollos, distante três e nas Serras de Montemor, e
outros montes mais pequenos, que a cercão.
Em menor distancia se descobrem nas suas campinas pelas partes do Nascente, Norte e
Poente a aldea de Nossa Senhora de Machede, distante duas legoas, e os celebres
Mosteyros do Espinheiro de Monges Ieronimos, distante pouco menos de meya legoa; o
de Santo António de Religiosos franciscanos reformados da Provinçia da Piedade; o de
Eschala Cali de Monges Cartuxos pouco distantes da cidade; o de S. Bento de Cástris de
freiras cistercienses distante hum quarto de legoa; e o grande aqueducto da agoa da
prata, e os edificios das quintas de Valbom, Canavial, portal de Val de Flores e
Louredo, desde o Poente, athe o Nascente os edificios das quintas do Monte Redondo,
da Picada, do Moniz, do Alcayde, do Britto e da Esperança, Convento dos Remédios de
religiosos do Carmo reformados, e igrejas de S. Sebastião e S. Braz: o que tudo em
circumferênçia da Cidade, com huma grande multidão de hortas, vinhas, pumares e
olivais, formão hum agradavel e fermozo objecto para o recreo de seus moradores.

5°. interrogatorio
Se tem termo seu, que lugares, ou aldeas comprehende, como se chamão, e quantos
vizinhos tem?
R. Tem termo seu, que para o Nascente se extende por distançia de seis legoas, e
confina com os termos das villas de Monsarás, Redondo, e Oriolla; para o Sul tres, e
confina com os termos das Villas de Alvito, Aguiar e Alcaçovas; para o Poente outras
tres, e confina com os de Montemor e Arrayollos; e para o Norte tres e meya e confina
com os de Evoramonte e Estremos. Compoemsse todo elle de (de) novecentas herdades,
alem de outras fazendas sem este titulo; que com as dos seus suburbios se podião formar
muitas mais, de sorte que há no termo desta cidade de capellas e morgados sinco mil e
quinhentos.
Dividese mais o mesmo termo em quinze (fre) // freguezias do campo com parochos
providos “adnutum”? pelo Prellado, menos o da freguezia da Torre dos Coelheiros, que
he apprezentado pelo Senhor da mesma Torre. São as freguezias e suas distançias as
seguintes: Nossa Senhora da Graça, Nossa Senhora de Machede e Nossa Senhora da
Assumpção da Tourega distantes duas legoas; S. Manços. S. Miguel de Machede. S.
Braz do Regedouro e S. Marcos da Abobeda distantes tres; S. Bento de Pumares, e S.
Vicente de Vallongo distantes quatro; Nossa Senhora do Rozario da Torre de
Coelheyros, distante três e meya; S. Jordão e S. Sebastião da Giesteira distante duas e
meya; S. Mathias huma, e S. Vicente do Pigeiro sinco. Tem mais tres aldeas que são as
duas de S. Miguel e Nossa Senhora de Machede e S. Manços que ficão nas mesmas
distançias, que são as freguezias já nomeadas.

6°. interrogatorio
Se a Parochia esta fora do lugar, ou dentro delle, e quantos lugares ou aldeas tem a
freguezia, todos pelos seus nomes?
R. Tem a cidade de Évora dentro dos seus muros sinco freguezias ao prezente, porque
antigamente teve sete, porem por justos motivos se extinguirão as duas de S. João e
Santa Martha, ficando somente existentes a Sé, S. Pedro, S. Thiago, S. Antão, e S.
Mamede; pelo que respeita a Sé se responde nos interrogatórios seguintes.

7°. interrogatório
Qual he o seu orago, quantos altares tem, e de que santos, quantas naves tem, se tem
irmandades, quantas e de que santos?
R. A Sé Metropolitana de Evora(2) templo magnifico, e hum dos milhores do Reyno he
dedicado a Nossa Senhora da Assumpção; esta fundado no mais eminente da Cidade e
serve a mesma que tem figura esferica com as suas tres levantadas torres, varandas, e
ameyas, de coroa e ornatos. Entrace para elle por tres grandes portas: a principal que //
(que) olha para o Sul, a do Sol e a do Norte, nomes que lhe dão as partes a que
correspodem; a principal he ornada com as estátuas dos doze Apóstolos, metida entre
duas torres: a dos sinos e a que servio de habitação aos Perlados; antigos e
correspondentes a estas as duas galerias do Passo Pontifical, e a das cazas da Vestearia
do Reverendo Cabbido e mais Beneficiados, o que […] com volumozo e espaçozo atrio
ageado de cantaria para que se sobe por diverssas e bem lançadas escadas da mesma he
agradavel e vistosa a sua entrada. He este templo todo de pedra de cantaria de
arquitectura gótica tão forte como bem diliniada e de tres naves de abobeda, a que
sustentão quatorze pedestaes, ou montanhas de pedra de notavel grossura, e grandeza
com tal semetria dispostos que despois de tantos seculos se admira a periçia de seu
author; tem \hum/ espaçozo cruzeiro, e no meyo hum elevado zimbónio, cuja cupulla, e
grimpa forma a treceyra torre, que na altura excede às duas \de/ que asima se falla;
por todo o cruzeiro e nave do meyo está cheyo de colunatas, a que chamão barandas,
que lhe dão notável graça e servem de comodo nos grandes concurssos; o pavimento he
todo de marmores brancos e as divizoins das sepulturas de pretos.
Fundou-o o Bispo D. Payo em 24 de Abril de 1186, sexto anno do seu Pontificado, e
segundo prelado que teve esta cathedral depois de recuperada Evora do poder dos
sarracenos; e porque a capella mor era pequena cabeça para tão grande corpo, o Bispo
D. Durando 1º fes a excellente que durou arhe o anno de 1721; no qual as instâncias do
Reverendo Cabbido Sé Vacante, o Augustissime Senhor Rey D. João 5°. de eterna
saudade deu licença para que dos rendimentos da Mitra, se fizece a que hoje tem, em
tudo régia e pontifiçia por ser toda ella de finissimos mármores, e engraçadas pedras de
diverssas cores lustrozas, tão polidamente lavradas que parece se esgotou nella o primor
e esmero da arte; nesta obra se gastarão mais de quatrocentos mil cruzados, e foi o seu
arquitecto o grande João Fedorico.
Teve este templo antigamente muitos altares encostados aos pedrestaes da nave do
meyo e outros na face do cruzeiro; aquelles há muitos annos que se demolirão, estes há
poucos, para ficar mais dezafogado e espaçozo; erão todos sagrados, como consta de
hum cipo de mármore com abreviaturas goticas, que está na mesma Sé no cruzeiro da
parte esquerda entrando para a sanchristia; os que ao prezente tem são os seguintes: no
cruzeiro o altar mor, que he sagrado e dedicado a Nossa Senhora da Assumpção com o
retabolo da mesma Senhora de delicada e primoroza pintura, e tão ricamente ornado //
(ornado) que bem corresponde à preciosidade da Sua Capella. O altar do Santissimo
Sacramento que he sagrado e está em Capella grande toda de talha muito mimoza e
dourada; e o altar do Santo Christo taobem em Capeila igoal ambos da parte da
Epistolla. Da parte do Evangelho tem no mesmo cruzeiro o altar do Santo Lenho em
capellla que corresponde a do Santissimo, e com o mesmo género de talha dourada com
tal artificio que por entre transparentes cristaes se estão vendo muitas relíquias athe o
número de 135 que se venerão nesta Capella, humas em meyos corpos, e braços, outras
em custódias, e relicários; e entre ellas as insignes do Sagrado Apostollo S. Mançio
primeiro Bispo Eborence, hum espinho da croa de Christo Senhor Nosso, e huma
grande parte da sua sagrada cruz, que tem pouco menos de hum palmo de comprido,
além de dois braços, hum dedo de largo, meyo de grosso, de sorte, que de huma e outra
parte se adora, e se venera em o preciozo relicário em que está, o qual há todo de ouro, e
de feitio tão excellente que excede este incomparavelmente a materia; alem do que está
ornado com 840 diamantes, 402 rubins, 180 esmeraldas, e varias pedras preciozas
espeçialmente a admiravel dehum camafeo, em que industrioza a natureza sem os
alinhos da arte formou da differença das cores e da variedade das [faces] huma perfeita
image do Ecce Homo; com esta relíquia enriquiçeo esta Sé o Senhor Rey D. Affonso 4°
deppois de lhe servir de gloriozo estandarte na memorável batalha do Salado, da qual se
concerva na mesma Sé no cruzeiro da parte da Epístolla hum padrão em que se descreve
para perduravel lembrança da posteridade. O altar de S. Lourenço tem capella igoal a do
Santo Christo; e na ponta do mesmo cruzeiro correspondente a porta do Sol o altar do
descimento da Cruz em Capella grande chamada do morgado do Esporão, o qual he
obrigado a paramentar o dito altar, e tem instituidas nelle duas missas quotidianas. Na
nave desta parte do Evangelho, principiando do cruzeiro está a porta a que chamão do
Norte e os altares do Santo Bento, Mauro e Placido, o do Bautismo de Christo, e o de
Santa Anna, a caza do bautistério, e o confessionario de penitençioria.
Na nave da parte da Epístolla, entrando pela porta principal, estão as portas a primeira
das escadas por que se sobe para o coro, torres e barandas; e a segunda porque sabem da
claustra para a Igreja as procissões quando se fazem naquella: e na forma seguinte estão
os altares o de Santo António, o da Adoração dos Reys, o de S. Vicente, Christeta
e Sabina, o da Senhora da Piedade, o da Cea do Senhor, e o da Ressurreicão; centrado
para o cruzeiro a mão dereita está a porta porque entrão para a claustra as procissões;
estes altares das duas nasves estão todos em capellas fundas muito aceadas com
retabolos de talha dourada e paineis de excellente pintura. Na nave do meyo encostado a
hum pedrestal tem o altar // (altar) de Nossa Senhora da Anunciada a que chamão
Senhora do Anjo de que consta por tradição a deu para esta Sé o Santo Rey D. Affonso
Henriques cuja memória e afeição do povo eborence tem impedido os dizignios que por
tantas vezes tem havido de se demolir, he elle feito com bella idea de entalhado
dourado, e ornado de excellentes e custozas peças.
He esta Bazilica sagrada, e celebra a festa da sua dedicação a 22 de Mayo com rito de
primeira clace; tãobem he propria desta Sé a festividade do milagre da Cera na 3°.
Dominga depoes do Pentecostes; teve a sua origem no anno de 1372 em que recorrendo
o clero e povo eborence a implorar da Divina mizericordia, por meyo da Virgem
Senhora da Anunciada, o remedio da grande consternação em que se via pelas
multiplicadas chuvas, que não deixavão colher as searas, ameaçando a continuação de
tantas tempestades huma grande esterilidade, depois das preces ao offertorio da missa se
serenarão os ares e pararão os chuveyros sem duvida pela interceção de Maria Senhora,
e para mayor evidencia do milagre toda a cera que ardeo as dittas preces e missas não
diminuio couza alguma antes se achou que tinha dobrado o pezo.
Taobem nesta Sé se fazem as comemorações em acção de graças pelas vitorias do
Salado, de Aljubarrotta e da aclamação do Senhor Rey D, João 4°., as do Anjo Custodeo
do Reyno, Santa Izabel e por votto da Cidade as de S. Sebastião e de S. Braz alem de
outras muitas outras.
Em todo o anno he de muito concursso e espiçialmente nos domingos e dias santos em
que sempre há sermão e não festividades mayores de Christo e de Nossa Senhora e na
da Exaltação da Santa Cruz em que por cauza do grande jubileo que nella há das
primeyras vesporas do dia 14 de Setembro athe o Sol posto do mesmo dia concorrem a
vizitar esta igreja innumeravejs almas de toda esta Provincia do Alentejo.
Ha nesta Igreja huma só Irmamdade, que he a do Santissimo Sacramento, e duas
mordomias que são a de S. Lourenço e Santo António.
O primeiro Bispo desta Dioceze foi S. Mansos, hum dos setenta e dois Discipulos de
Christo Senhor Nosso a que se seguirão S. Jordão e S. Brissos, e teve athe que foi
occupada esta cidade pelos sarracenos, tempo em que governava Justino, 23. Bispos, de
que há memoria e se achão assignados nos Concílios de Elvira e Tolledo os mais delles:
e depois de recuperada, do anno de 1166 em que lhe foy restituida a dignidade
episcopal, athe 21 de Abril de 1540 em que morreo o seu ultimo Bispo e patriçio o
Cardeal Infante D. Afonso 35; e de 24 de Setembro de 1540 em que pelo Santo Padre
Paulo 3°. foi elevada esta Igreja a digmdade Metropole, sendo seu primeiro Arcebispo o
Cardial Infante D. Henrique athe o prezente tempo, conta doze Arcebispos. //

8°. Interrogatório
Se o Parocho he cura, vigário, reitor ou prior e deque apprezentação he e que renda tem?
R. A este mterrogatorio se responde no seguinte

9°. Interrogatório
Se tem Beneficiados, quantos, e que renda tem, e quem os apprezenta?
R. A gerarquia desta Metropole, a que serve de [...] e de explendor o seu
Excelentissimo Prelado, compoem-se de diverças ordens de ministros, que são: oito
dignidades de Deão, Chantre, Thesoureiro mor, Mestre Escolla, Arcediago do Bago,
Arcediago de Sexta, Arcediago de Lavre, e Arcediago da Oriolla, treze Conigos de
Prebenda inteyra, sinco de meya Prebenda, sinco Quartanarios, quinze Bachareis, dez
Benefiçiados, dois Beneficiados a que chamão Capellains da Fabrica, tres Altareyros,
quatro Sanchristains, hum Subchantre, Mestre da Capella, e Muzicos, Meninos do Coro,
e dois Organistas além de outros officiais inferiores deputados para o bom regimen e
governo della.
A Mitra foi a mais rendoza, e rica de Portugal, hoje pelas muitas pençoins com que está
gravada e terça parte que se lhe desmembrou para a Patriarchal de Lixboa he mui
diminuto o seu rendimento e como consta de fructos, e he incerto o seu preço facilmente
se não pode averiguar.
A renda da Fabrica serão doze athe treze mil cruzados, tãobem extrahida de fructos, e
foi antigamente mayor, por que se cumpunha taobem de rendas certas de erdades mui
pingues, que forão por Bulias Apostolicas desmenbradas della e unidas ao Collegio do
Spirito Santo desta Cidade.
O rendimento da meza Capituliar compoem-se de 25, prebendas cada huma de quatro
mil athe quatro mil e quinhentos cruzados conforme o preço dos fructos as quaes se
distribuem na forma seguinte:
Pelas primeiras quatro Dignidades de Deão, Chantre, Thezoureyro mór e Mestre
Escollaa se distribue por cada hum sua Prebenda, e alem da que percebe o Deão, tem
mais o rendimento do Priorado do Vimieyro anexo ao mesmo Beneficio que he quazi de
igoal rendimento; os treze conigos tem cada hum sua Prebenda; sinco meyos conigos e
o Santo Officio desta Cidade tem // (tem) tres Prebendas, meya cada hum; quatro
quartanarios, tem huma Prebenda, cada hum a quarta parte della; o Collegio do Espirito
Santo desta Cidade tem huma Prebenda, e della se tira certa porção, que leva o quinto
Quartanario. Os quinze Bachareis tem duas Prebendas e os Beneficiados huma. Todas
as refferidas Prebendas forão mutilladas na terça parte por Bulla Apostólica para a
Igreja Patriarcal, menos a do Chantre pela obrigaçao que tem de pagar ao subchantre, a
do Thezoureiro mór porque paga aos Sanchristains e Sineyros, a que se unio ao Collegio
da Companhia, a meva que se uniu ao Santo Officio, a dos quatro Quatarnarios, as dos
Bachareis e Benefeciados e as duas Magistral e Doutoral, porém porque estão duas, a
que se não tirarão terças partes ficavão sendo mayores que as outras, por Bulla do Santo
Padre Benedicto 14 se lhe tirou a cada huma a sua terça parte e destas duas terças se
criou de novo outra conezia Doutoral, ou Magistral, provida alternativamente, hum
provimento em Doutor Iurista, e o outro em Doutor Theologo ficando por este modo
todos de igual rendimento, e a Sé com mais hum Conigo, alem dos treze de Prebenda
inteyra de que assima se faz menção.
Os quatro Arcediagos tem rendas proprias separadas das da Meza Capitular, e rendião
antigamente o Arcediago do Bago dous mil cruzados, o da Sexta setecentos mil reis
hoje porem so recebem trezentos cada hum pela desmembração que se fes a cada hum
para a Igreja Patriarchal de Lisboa. O treceyro Arcediagado do Lavre rende duzentos e
quarenta mil reis cujos rendimentos sempre teve pouco mais ou menos. O quarto
Arcediago da Oriola rende pouco mais de cento e sincoenta mil reis, e a estes se lhe não
tirarão terças partes ficarão indemnes pela tenuidade dos seus rendimentos.
Os dois Capellaens da Fabrica são benefiçios collados, e rendem pouco mais ou menos
cada hum setenta mil reis, e lhe paga a fabrica da Sé, como tãobem aos tres Altareyros,
que rendem, os dois principais oitenta mil reis e o menos principal dezaçeis; tãobem
paga a fabrica ao Mestre da Capella e a todos os muzicos, mayores ou menores
ordenados, conforme o prestimo e merecimento de cada hum, sustenta aos Meninos do
Coro. Ao Subchantre paga o Chantre noventa mil reis cada anno; e aos quatro
Sanchristains o Thezoureyro mór certa porção a cada hum annualmente.
Os Parochos desta Igreja são 25. a saber os quinze Bachareis e os des Beneficiados, os
quais administrão os sacramentos aos parochianos da freguezia dois cada semana.
O Provimento do Arcebispado e sinco conezias, duas de Magistral e Doutoral que esta
Sé tinha antigamente, e huma Magistral ou Doutoral, que se criou de novo das [rendas]
ja refferidas, e mais duas tãobem Magistral e Doutoral que por Bulla Apostolica //
Apostolica) se sobrogarão nesta Sé pelas suprimidas da Sé de Lixboa são do Padroado
Real porem para as conezias precede concurço de Doutores Theologos, ou Iuristas na
Universidade de Coimbra.
O provimento do Deado he “insolidum” da Sé Apostolica, o Arcediagado de Lavre de
alternativa do Prelado com o Cabbido. Os 15 Bachareis são da aprezentação
“insolidum” do Prelado e os Beneficiados, porem para estes dez Beneficios precede
concursso de Theologia Moral, latim e solfa. Capellães da fabrica e altareyros são
“insolidum” d’apprezentação do Prelado, o Subchantre he provido pelo Chantre, e os
Sanchristães pelo Thezoureyro mór os mays Benefícios de Conezias, arcediagados e
quartanarios são de alternativa […] da Sé Apostolica com o Prelado.

10°. Interrogatório
Se tem Conventos de que religiozos ou religiozas e quem são os seos Padroeyros?
R. Tem Evora quatorze conventos de religiozos e de religiozas oito, quatro Collegios, e
quatro recolhimentos de mulheres, os que estão situados na freguezia da Sé são os
seguintes:
Conventos de Religiozos dentro da cidade
O Convento da Graça foi fundado por El Rey D. João 3°. que não quis ser padroeiro e
deu este convento ao Conde do Vimiozo.
O Convento do Carmo foi a sua primeira fundação feita por D. Frei Baithazar Limpo
então Provincial da mesma Ordem, e depoes Arcebispo de Braga, fora dos muros da
Cidade junto a Porta da Lagoa ajudado para isto da doação que lhe fes Ruy Dias Cotrim
de toda a sua fazenda; porém demolido este na tomada de Évora por D. João de Austria,
se fundou o segundo pelos religiosos no Palácio da Serenissima Caza de Bragança
dentro da Cidade; não tem padroeyro e so o he da Capella moro Senhor das Alcaçovas.
O Collegio do Spirito Santo da Sagrada Companhia de Jesus e a sua celebre
universidade foi o seu fundador o Senhor Cardeal Rey; não tem padroeyro.
O Collegio de S. João Evangelista de conigos secullares do mesmo Santo foi o seu
fundador Ruy de Mello primeiro Conde de Olivença tronco dos Excelentissimos
Duques do Cadaval, que são os Padroeyros.
Conventos de Religiozos extramuros da Cidade
O Convento de Nossa Senhora do Espinheyro de Monges Ierónymos foi fundado por D.
Vasco Perdigão Bispo desta Cidade que nelle está sepultado: não tem Padroeyro.
O Convento da Cartuxa de Monges Brunos, foi o seu fundador o Senhor D. Theotonio
de Bargança Arcebispo de Évora; não tem Padroeyro.
O Convento de Santo António de religiosos de S. Francisco da Provincia da Piedade;
foi o seu fundador o Senhor Cardial Rey, e porque este morreo antes de se concluir a
obra o Senhor D. Theotónio de Bargança Arcebispo de Évora a acabou e nesta Igreja
está sepultado. //
O Convento de Nossa Senhora dos Remedios de religiosos do Carmo reformados, foi
fundado no principio com as esmollas dos cidadoens da Cidade, porem depoes
continuou a fundação o Senhor D. Jozé de Mello Arcebispo nesta cidade que foy
Padroeyro, e na sua Igreja está sepultado.
O Convento de Santa Margarida meya legoa distante de Évora de eremitas de S. Paulo
da Serra de Ossa foi o seu fundador Mendo Gumes de Siabra Illustrissimo Cavalheiro
do tempo de El Rey D. João o 2°., o qual depois de deixada a miliçia se chamou Mendo
Gomes o pobre não tem padroeyro. Todos os referidos sinco conventos estão cittos fora
dos muros da Cidade.
Conventos de Religiozas
O Convento do Paraizo principiou em recolhimento de amparadadas foi fundadora
Brites Galvoa da nobillissima famillia Eborence dos Gaivões, e destes prinçipios subio a
ser convento de religiosas dominicas, sogeitas ao Provinçial da mesma ordem. Não tem
Padroeyro.
O Convento Novo de S. Jozé de religiozas carmelitas descalças, forão suas fundadoras
as duas irmãas D. Felleçiana, e D. Eugenia da Sylva de Illustrissima familia Eborence;
he sogeito ao Provincial da mesma Ordem. Não tem Padroeyro.
O Convento de S. Bento de Castris primeiro convento de religiozas em Portugal
extramuros da cidade de Evora prinçipiou em recolhimento de mulheres amparadadas, a
que deu prinçipio Urraca Ximenes, e outras donzellas Eborences e dahi subio a
Convento de religiozas de Cister sugeito ao Abade Geral da mesma ordem. Não tem
Padroeyro. De todos estes conventos de religiozos tratão as Chronicas da sua religião
aonde se pode ver o que pertence a cada hum respectivamente com mais extenção.
Collegios
O da Purificação fundado pelo Senhor Cardial Rey, sogeito ao Reitor da Universidade
de Évora.
O da Madre de Deus fundado por Heitor de Pinna Olival e sua mulher D. Francisca de
Britto Sacotta, sogeito ao Reytor da Universidade de Evora.
O dos Meninos do Coro fundado pelo Senhor Arcebispo D. Fr. Luiz da Sylva, he
sogeito ao Perlado, e sustentado pelas rendas da fabrica.
O dos Meninos Orphãos fundado pelo Chantre desta Sé Balthazar de Faria Severim;
he sogeito ao Perlado.
Recolhimento de mulheres
O de S. Manços citto no antigo palaçio dos // (Dos) Sepulvedas, que comprou o Senhor
Arcebispo D. Theotonio de Bargança para Collegio de Estudantes pobres, que nelle
viverão algum tempo, porem mudado este parecer por certas cauzas se dedicou para
domiçillio de Donzellas n/pobres; he da proteção do Perlado.
O da Piedade citto no palacio dos Condes Baroins de Alvito, que comprou o Senhor
Arcebispo D. Theotonio de Bargança para hospiçio de pobres; hoje he habitação de
Donzellas Orphaãs pobres, principalmente daquellas cuja beleza lhe pode servir de
preçipiçio e ruina; he da proteção do Perllado, que as sustenta emquanto estão nelle; e
quando tomão estado de cazadas a cada huma dellas se dá o dote de cem mil reis, legado
que deixou o piissimo António Vaz Machoca celebre medico desta cidade, e muito mais
por fazer herdeiro ao dito recolhimento da importancia de toda a sua fazenda de cujos
rendimentos se tirão os dittos dottes.
O da Magdalena citto no antigo palaçio dos Camões de mulheres arependidas e
penitentes que antigamente foi habitação de religiozas do Salvador, a quem a Mitra,
paga todos os annos certo foro, he sustentado pelo Perlado e da sua proteção.

11°. interrogatório
Se tem Hospital, quem o administra, que renda tem?
R. Teve antigamente a Cidade de Évora doze hospitais, ou albergarias como lhe
chamavão naquelle tempo; dottados então de boas rendas que pela má administração se
diminuio muito, o que constando ao Senhor Rey D. João 2°. com faculdade Pontifiçia as
uniu para hum so hospital; e porque a morte se lhe antiçipou antes de ter effeito a dita
faculdade, seu sucessor o Senhor Rey D. Manuel impetrando por escrupullo, que teve
da primeira graça outra nova de Alexandre 4°. para a sobredita união, fundou com as
rendas daquelles hospitais, o do Spirito Santo desta Cidade. He hoje administrado pela
Mízericordia da mesma Cidade, as rendas delle são tenues para as despezas de muitos
doentes, que nelle se curão, porque terá de renda dois mil e quinhentos cruzados; supre
porem a mesma Caza da Mizericordia ao que aquellas não chegão.
O segundo hospital que tem esta Cidade he ao que chamão dos Estudantes, fundouo o
Senhor Cardial Rey, he administrado pelo Reverendissimo Padre Reitor da Companhia
curamce nelle somente estudantes.
O 3°. hospital he ao que chamão das velhas fundado por D. Fernando de Castro 1°.
Conde de Basto, para velhos e velhas destituidos de forças para adquirirem o sustento.
Concervouse muito tempo com grande número de similhantes pobres, hoje só concerva
seis a que se dá certa porção quotidianamente para seu sustento // (sustento).
Administrace por ordem do Marques de Valença.

12°. Interrogatório
Se tem Caza de Mizericordia?
R. Pertence a freguezia de S. Pedro a resposta deste interrogatorio

13°. Interrogatório
Se tem algumas Ermidas, e de que santos, e se estão dentro ou fora do lugar, e a quem
pertencem?
R. Alem das Ermidas dos Coilegios Recolhimentos e hospitaes, que são onze, tem
mais esta Cidade a Ermida do Senhor da Pobreza dedicada ao mesmo Senhor
Crucificado, a da Senhora da Cabeça, a da Senhora da Natividade, a da Senhora da
Expectação todas fundadas com as esmollas dos fieis e pertencem ao Perlado; tem mais
a de S. Miguel pertençente a Comenda da Freiria da Ordem de Aviz que hoje se acha
aruinada, e quazi demollida como ordinariamente sucede a quazi todas as Igrejas de
Comendas. Fora dos muros tem a Ermida de S. Bartolomeu fundada pelo sacerdote
secullar Lourenço Martins com algumas esmollas dos fiéis que pertence ao Perlado; a
de S. Braz no roçio da mesma Cidade fundada com as esmollas do Rey D. João 2°. e da
Cidade, pertence à Câmara da mesma; a Ermida de S. Sebastião foi primeiramente
fundada com esmollas dos Eborences, porem arazandosse na tomada de Evora em 1663
e principiando-a a reedificar o Senhor Arcebispo D. Fr. Luiz da Sylva, a morte lhe
atalhou o seu complemento o que executou depois o Juiz de fora da Cidade Jozé Gomes
Pitta, pertence à Câmara; a Ermida de Nossa Senhora da Piedade poucos annos há
edificada com as esmollas dos fieis, pertence aos Monges Ierónimos, todas são de muito
concursso nos dias dos seos oragos, e a primeira e ultima em todo o tempo.
Muitas mais Ermidas tem fora da Cidade, e no seu termo em quintas particullares e
herdades; as mais proximas à Cidade são as seguintes S. Ignacio e S. Francisco Xavier
na quinta de Valbom dos Padres da Companhia; S. João de Deus, na quinta de Manuel
Ribeyro; S. Pedro e S. Barbara em Valcobo; os Santos Reys na quinta da Sylveira;
Santo Antonio na da Oliveira; S. Roque no citio do Penedo do Ouro, Nossa Senhora da
Esperança na quinta dos religiosos Agostinhos; S. Jozé na quinta dos Abelhos; Santo
Ignacio na quinta dos Souzas Chichoryos; S. Jozé no Egipto na Fiúza dos Azevedos;
em Monte Redondo S. Cornellio e S. Caetano e no mesmo citio a de S. Miguel na
quinta dos Padres Gracianos; todas pertencem aos Senhores das fazendas em que estão
citas; das mais que ficão em mayor // (Em mayor) distancia da Cidade farão menção os
Parochos das freguezias a que pertencem

Ao interrogatório 14°. ja fica respondido.

15°. Interrogatório
Quaes são os frutos da terra que os moradores recolhem em mayor abundancia?
R. Todos para sustento da vida humana especialmente trigo, centeyo e cevada, vinho,
azeite, e gados de todos os géneros.

16°. interrogatório
Se tem juiz ordinário desta Camara, ou se está sogeita às justiças de outra terra e qual hé
esta?
R. Tem esta Cidade varios Tribunais para boa administração da justiça assim a respeito
dos Eccleziásticos como dos seculares. São os Tribunais Ecclesiásticos tres: o do Santo
Officio, o da Rellação Archiepiscopal, e o da Conservatória Eccieziastica da
Universidade. Os seculares sete: o da Provedoria, Corregedoria, Conservatoria Secular
da Universidade, Senado da Câmera, Juízo de Fora, Juízo dos Orphãos, o da Ágoa da
Prata, e da Mampostaria.

17°. Interrogatório
Se há memoria de que nella fiorecessem, ou della sahissem alguns homens insignes por
virtudes, letras, ou armas?
R. Tem esta Cidade sido mais fecunda de varões Ilustres e egregios nas virtudes, nas
letras, e nas armas, e se se houvessem de narrar todos os que merecem lembrança na
historia, seria difuzissima a resposta deste Interrogatorio, porem como delles trata o P.
Fonseca na sua Evora Glorioza aonde se podem ver, dela se pode approveitar, quem
quizer espiçial notticia de cada hum.

19°. interrogatorio
Se tem feira e em que dias, e quantos dura, e se he franca ou cativa?
R. Tem feira e notavel a que charnão de S. João Bautista, prinçipia no dia do mesmo
Santo e dura tres dias he franca muito opolenta e de grande // (E de grande) concurso
porque nella acodem em abundancia todos os generos de fazendas, e todas as 3ªs. feiras
a dos Estudandes taobém franca.

20°. interrogatório
Se tem Correyo e em que dias da Semana chega e parte, e se o não tem de que correyo
se serve e quanto dista da terra a que elle chega?
R. Tem correyo que chega na quinta feira pela manhaã e parte ao Sabado pela huma
hora da tarde de cada semana.

21°. Interrogatório
Quanto dista da Cidade Capital do Bispado, e quanto de Lisboa Capital do Reyno? R. A
Cidade Capital do Arcebispado hé Evora distante de Lisboa vinte legoas.
22º. Interrogatório
Se tem alguns privilégios, antiguidades ou outra couza digna de memória?
R. A antiguidade de Évora he couza bem notoria e já no tempo do Capitão Viriato era
povoação famoza, foi corte do valerozo Sertorio, que a emnobreceo com fabricas de
muros, aqueductos, e palacios e sempre conservou o proprio nome desde a sua primeira
origem, e o sittio da sua fundação, à sua vista se alcançarão as primeyras victorias dos
Consules Romanos, e foi a Roma Gentilica, e cabeça da falsa religião dos mesmos
Romanos nos tempos das suas guerras, e do seu governo, o Emperador Julio Cezar lhe
deu o título de Liberalidade Julia e o privilegio do Município do antigo Latio, o
Emperador Trajano mandou abrir nella caza de moeda de que ainda se achão muitas que
forão cunhadas. Foi a primeira Cidade da Lusitania, que recebeo a fe de Christo pregada
pregada pelo Sagrado Apostolo S. Mancio de sorte que por espaço de 600 anos a
conservarão illeza no cativeyro de Marrocos os Eborences para onde forão levados na
invazão dos Serracenos. Foi corte dos Reys godos Sezibuto, Sintila e Re? que nella
baterão moeda e lhe servio de propugnáculo contra o Império // (Imperio) Romano, e
nella fabricou o mesmo Rey Sizebuto duas torres que ainda perseverão conheçidas com
o nome deste Rey. Foi conquistada pelos mouros, e gemeo de baxo de seu cativeyro por
mais de quatrocentos annos; athe que no de 1166 foi recuperada pelo celebre Giraldo
sem pavor. O primeiro Rey deste Reyno lhe deu o foro de Cidade, e lhe restituio a
dignidade Episcopal concedendo-lhe muitos privilégios e izençoins, que confirmarão os
Senhores Reys D. João 1º., D. João 2º. e D. Pedro 2°. com a clauzula de que lograce
todos os foros e privilegios que tinha ou tivesse Lixboa assim prezentes e preteritos
como futuros. Foi corte dos Reys D. Affonso 3°., D. Diniz, D. Affonso 4°., D.
Fernando, D. Duarte, D. Affonso 5°., D. João 2°., D. Manoel e D. João 3º. Tem o
segundo assento em cortes logo depois de Lisboa e nela as celebrarão os Reys D. Duarte
em 1437 sobre a liberdade do Infante D. Fernando cativo em Africa; D. Affonso 5°.
sobre o dinheiro que lhe offereceo o Reyno para a guerra contra Castella, D. João
2°. em 1482 e 1490. sobre o cazamento do Príncipe D. Affonso seu filho com D. Izabel
filha dos Reys Catholicos solenizados nesta Cidade com as mayores festas e pompa que
athe aquelle tempo tinha visto a Europa; e finalmente El Rey D. João 3°., no anno de
1535. Foi a primeira praça de armas do Rey D. Affonço Henriques e do Rey D. Sancho
2°. e do grande D. Nuno Alves Pereira.
Nesta cidade se instituio a primeira Ordem militar de Espanha com o título de freiras de
Évora, de que ainda persevera a memoria e hoje permanece em Aviz; nela se erigio a
primeira Capella Real; o primeiro Dezembargo do Passo; o primeiro Tribunal do Santo
Officio.
Ha memoria de haver nesta cidade tres Palacios Reais o da Freyria a que chamavão a
Corte, convertido em cazas particulares; o da Praça entre as duas ruas do Raymondo e
Cadeya, de que pertence huma parte ao Senado desta Cidade, e outra aos Senhores das
Alcaçovas; e o de S. Francisco que ainda reduzido a ruinas, com está, bem se vê a sua
grandeza, e capacidade. Alem destes tinha e tem Évora outros muitos das pessoas mais
illustres do Reyno, dos quais se achão convertidos huns em cazas e domicillios de
religião e piedade e outros perseverão indemnes.
Tem templos magnificos e fabricas sumptuozas, tais são na freguezia da Sé as da
Universidade e Collegio da Purificação, a Cartuxa, os dois hospitais real e da
Universidade, o grande aqueducto de Agoa da Prata; o Collegio dos mininos do coro, e
claustra da Sé, os palácios Archiepiscopal e da inquizição, e dos Duques do Cadaval,
dos Condes de Basto, Condes do Vimiozo, Condes de Óbidos, Condes de Santa Cruz,
Convento de S. Bento, Convento Novo e a obra nova dos Castellos.
Merece tãobem fazerce memoria neste lugar da grande antigualha do pórtico do templo
de Diana, que deois de dezoito secullos se concerva inteiro no mais eminente da cidade
sustentado em quatorze colunas de notavel grandeza com // (com) capiteis de folhages
de admiravel feitio e primor.
Taobem nesta cidade se concervão ainda algumas reliquias dos muros de Sertorio, que
erão fortissimos de pedra de cantaria com 25 palmos de grosso; disfizerãose no tempo
d’ El Rey D. Fernando por persuasoins de Lopo e Vasco Roiz os quais fundados em
interesses particulares sendo cidadoins desta Cidade forão tão pouco apreciadores da
antiguidade que fizerão acabar e pôr por terra huma das milhores obras e mais enteyras
dos Romanos que havia em toda a Europa.

23°. Interrogatorio
Se há na terra ou perto della alguma fonte ou lagoa celebre, e se as suas agoas tem
alguma qualidade espiçial?
R. Ouve antigamente huma lagoa de agoa nativa que deu o nome a huma das portas
porque se sahe da cidade; desta se aproveitarão os Padres Carmelitas descalços,
fazendo- lhe hum aqueducto(3) que a leva ao seu Convento; he muito boa para beber, e
perzervativa da dor de pedra. As mesmas propriedades tem as dos Chafarizes das
Brabas e o de El Rey, aquelle mais rico de cabedal, e este mais pobre, porem de mayor
apreço para El Rey D. Manoel que o mandou trazer; fica o primeyro na estrada de
Lixboa, e o outro na de Monsarás em pouca distancia da Cidade. Não mui longe deste
último está o posso de entre as vinhas obra dos romanos, todo de pedra de cantaria de
grande copia de agoa e de admiravel qualidade, tem servido nas maiores secas da mayor
utilidade para todo o povo. Na estrada de Estremos os dois chafarizes dos Leoins de
abundançia de agoa mas salobra; e em circuito da Cidade outras muitas fontes que não
merecem espiçial lembrança.

Ao Interrogatório 24. Não há que dizer.

25°. Interrogatório
Se a terra for murada, digace a qualidade de seos muros; se for praça de armas
descreasse a sua fortificação. Se há nella ou no seu districto algum Castello ou torre
antiga, e em que estado se acha ao prezente?
R. He murada, obra que principiou El Rey D. Affonso [...] continuou El Rey D. Pedro
1°. e acabou El Rey D. Fernando, tem os muros // (Os muros) de circuito tres mil
quatrocentos é sincoenta e dois passos erão para aquelles tempos capazes, porem hoje
debeis e de pouca fortaleza para resguardarem a cidade, tinhão des portas, que erão as
da Lagoa, Aviz, Moinho de Vento, Traição, Machede, Mendo Estevens, Mesquita,
Rocio, Raymondo, Alconchel, e erão guarnecidas de ameyas e torres não mui altas, que
ainda existem, mas pouco dignas de memoria. Attendendo porem o Senhor Rey D. João
4°, ao General das armas o Serenissimo Senhor D. Theodósio à debelidade dos muros
desta cidade, ordenou se fizecem outros mais capazes e com effeito se principiarão junto
a porta do Raymondo dandoce o nome ao primeiro lanço da muralha o do forte do
Principe continuou esta obra por distancia de 858 passos que tanto vay desta à porta do
Raymondo ao sittio em que hoje está sem adiantamento algum há mais de 25 annos.
Ha dentro desta cidade varias torres. A chamada das sinco quinas incorporada no
Palacio dos Duques do Cadaval, e as duas da porta de Moura incorppradas em cazas
particulares todas tres fabricas do grande Sertorio, a torre de Giraldo dentro da cerca dos
conigos seculares de S. João Evangelista unica reliquia que ficou do grande castello que
havia neste sittio obra tãobem de Sertorio destruido no tempo de El Rey D. João 1°.
com a sua celebre torre a que chamão Mouxinha que hoje parece montanha de
argamassa e das duas torres que mandou acrescentar aos mesmos muros de Sertorio o
Rey godo Sizibutto tãobem incorporadas em cazas particulares, fora da cidade a torre ou
atalaya em que o celebre Giraldo degoliou as sentinellas dos mouros para senhoriar a
cidade sitta no outeyro de S. Bento. Não he esta cidade praça de armas e so tem hum
regimento de soldados dragoins.

26°. Interrogatório
Se padeceo alguma ruina no terremotto de 1755; e em quê, e se está já reparada?
R. Ainda que se sentio vehementissimo e cauzou algumas ruinas, forão estas de pouca
conçideração, e todas se achão reparadas.

27°. Interrogatório
E tudo o mais que houver digno de memoria de que não faça manção o prezente
Interrogatório
R. Vejase o que dis André de Rezende a repeito da cidade de Évora na Historia da
antiguidade della, o mesmo Autor de Antiquitibus Lusitana, Estaço nas Antiguidades de
Portugal [...].

Ao que // (Ao que) se procura saber da serra, não há que responder;
porque a não há nesta freguezia.

A resposta do rio se reponde que o não tem e so em pouca distancia desta cidade de
varios regatos que correm por entre algumas /fazêndas\ nos sittios de Valcovo e
Louredo, se forma hum ribeyro, que chamão o Xarrama que do Norte athe o Sul vay cercando a cidade em bastante distancia, este he pequeno e so no tempo de muitas
chuvas augmenta o seu cabedal ; teve varias pontes para serviço dos moradores que
são a do Espinheyro, a de Estremos, a de Machede, a de Monsarás e a de Viana; e os
moinhos do Torres, dos Fornos da Cal, da Turregela, de Martim Gil, e da Camoeyra,
que moem só de Inverno ; conserva sempre o nome de Xarrama athe se meter no
Sado, aonde chega rico pelas muitas agoas de varias ribeyras que nelle se metem.

Isto he o que eu respondo a estes Interrogatorios pelos termos mais breves que pode ser,
na consideração de que desta cidade falão muitos Autores aonde se pode ver o que mais
della se quizer averiguar.
Evora 21 de Junho de 1758.
O Reverendo Francisco Garcia da Roza

(1) Actualmente a cidade de Évora tem 54625 hab. (Censos 1991 - população presente).

(2) Sobre a Sé de Evora, veja-se o estudo de Júlio César Baptista. “A Catedral de Evora” in Boletim A
Cidade de Evora, n°. 57, pp. 5-107

(3) Este aqueduto foi demolido em Setembro de 1973, com o arranjo urbanístico do Largo de Alconchel.



Transcrição: Maria Ludovina Grilo
Revisão: Francisco Segurado


GRILO, Maria Ludovina B. – O Concelho de Évora nas Memórias Paroquiais de 1758
(Conclusão). A Cidade de Évora. Évora: Câmara Municipal. 2ª Serie, nº 1 (1994-95),
pp. 89- 156.

1758 Julho 13 - Santo Antão
Memória Paroquial de Santo Antão, Évora
[ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 14, nº 111a, pp. 825 a 864]

Freguezia de S. Antão da mesma Cidade
A Cidade de Évora distante da Capital do Reyno vinte légoas , está sittuada na
Província do Alentejo, e quazi no meyo da verdadeira Luzitânia em lugar plano, mas
alguma couza levantado, e em terreno salutifero pela pureza dos ares, e fertil de todas as
couzas necessarias para o sustento da vida huma porque nelle se crião igualmente flores,
e fructos, estes delicados, e aquellas preciozas, sem cultura nascem nelle os jonquilhos,
as rozas, os lirios, e as açucenas, e com pouca se colhe grande abundancia de trigo o
mais selecto, e não menor cópia de vinho, azeyte, e hortaliças tudo saborozo, e
excellente , parece estar edifficada como outra Modena sobre algum grande lago, ou
caudelozo rio, porque o mesmo he sangrar a terra a poucos palmos, que brotarem della
chorros de agoa pura, e christalina; dizem alguns Authores, que o seu sittio retrata ao
vivo Roma, e que por isso o grande Sertorio encontrou no desterro a patria, e grande
glória seria della equivocarse com a Cabeça do Mundo Christão, porem a pobreza do
Xarrama, e sua distância, e a riqueza, e vizinhança do Tibre impedem, e embaração a
semelhança, que lhe atribuem; supposto, que esta falta a quizerão remediar os Senhores
Reys deste Reyno, obrigando ao Oceano sobir pelo Sadão, mas o custozo, e difficuldade
da obra embaraçou os voos da esperança.
A sua antiguidade he grande porque huns a fazem fundação dos Noemitas, logo depoes
do diluvio // (vio), outros pelos Eborones, ou Eboronisses, dous mil e sincoenta e nove
annos antes da vinda de Christo, porem o certo hé, que já no tempo do valerozo Veriato,
era povoação famoza, poes venceu este junto a dia, sendo consules em Roma Gnes
Cornelio Lentulo, e Lucio Mummio, ao Pretor Cayo Plascio, cento e quarenta annos
antes da redenção do Mundo, como declara a inscripção da pedra do Sepulchro de Ludo
Sabino, que está em S. Bento de Pumares freguezia do seu termo.
Sempre conservou o proprio nome desde a sua origem, e assim o escrevem Plinio.
Pomponio Mella, e Antonino Pio no seu Itinerário; foy em nobressida pelos Romanos,
depoes pelos Godos, e finalmente pelos Augustissimos Reys deste Reyno, que sempre a
estimarão como rica joya da Sua Coroa, com que mereceu ser a segunda delle, e a
primeyra da Provincia do Alentejo. He cidade Archiepiscopal com Tribunal do Santo
Officio, e Universidade, e o seu governo civil se compoem de varios Magistrados,
porque hé cabeça de Commarca, a que estão subordinadas muitas villas, e algumas
nottaveis.
O seu material he formozo, e ornado de egregias fabricas, assim sagradas, como
profanas, as suas ruas são alegres, e direytas com muitas praças, e em algumas
engraçadas fontes de nevados marmores daquella agoa, chamada da prata, que por
distancia de quazi três legoas, lhe traz o celebre aqueducto Sertoriano ; destas praças a
melhor, e mais principal, hé a que chamão grande, não por estar no coração da Cidade,
plano, e assentado della em que dezembocão, ou nascem outo principais ruas, mas
tambem pellos belos edifficios com que se orna; a sua figura he quadrada, mas de
mayor comprimento, está toda cercada de arcos, em cujas columnas, e pillares se
sustentão airozas galarias, da parte do Sul, tem o (Pa) // Palacio da Camera, ornado o
seu frontispicio dos sipos e antiqualhas romanas, postas com bella semitria, que o fazem
vistozo, e agradavel, e junto a estes os carceres, e cadea publica, e entre as duas ruas do
Raymundo, e Cadea, o Palacio Regio chamado impropriamente dos Estaos, que hé hoje
parte do Senado Eborense e parte dos Senhores das Alcaçovas; porem de todos os
edifficios com que se em nobresse esta praça, o mais principal, e magnifico, hé o desta
Bazilica de S. Antão Abbade , huma das sinco freguezias que tem Evora dentro dos seus
muros, que sendo a quarta na ordem das parochias, na grandeza do templo, explendor e
aceyo delle, e numero dos seus parochianos, tem o segundo lugar; esta fundado entre as
duas ruas de Alconcel, e Ru’ancha, m sittio alguma couza eminemte, em que se forma
hum grande taboleiro, ou adro de cantaria com muitas e suaves escadas da mesma
porque se sobe para elle; he o seu frontispicio de excellente arquitectura, e
bastantemente elevado, ornado de huma e outra parte com duas torres, de que se
descobre desde o Poente, ate ao Sul huma grande parte das campinas desta Cidade,
entrasse para elle por três grandes portas, que tem no mesmo frontispicio, há a sua
arquitectura da ordem dorica, todo de abobeda, firmada em des colunas de grande
altura, e corpulência, que dividem as tres naves que elle tem, que corresponde cada
huma a sua porta.
He o referido templo mui claro, e dezafogado ornado de diversos altares,
primorozamente aceados, e compostos; tem no cruzeiro sinco, o Mor dedicado a S.
Antão Abbade orago da Igreja em que se venera a Imagem do mesmo Santo tão devotta,
e de tal // (tal) estatura, que bem dezempenha o sobrenome do Santo, que reprezenta;
tem hum notavel retabolo todo de talha dourada, que na grandeza poucos o igualarão e
na bocca da tribuna, que he huma das milhoras obras, e de bom gosto, que ha nesta
Cidade, hum admiravel painel da Cea do Senhor, obra do insigne Bento Coelho.
No cruzeiro do lado da Epistola, tem os altares do Santissimo Sacramento, no qual a
riqueza e aceyo de que se compoem, formão senão digna, ao menos decente morada da
Suprema Magestade, que nelle se adora, e o altar de S. Roque com \as/ estatuas do
mesmo Santo, e S. Barbara e no retabolo hum painel de S. Sebastião, S. Romão e S.
Christovão. Da parte do Evangelho em capella, que corresponde à do Sanctissimo, o
altar da Senhora dos Prazeres, e em outra, que corresponde à de S. Roque o altar da
Senhora dos Remedios, em cujo retabolo, tem hum excellente painel de S. Agostinho, e
na branqueza de vulto as estatuas de S. Anna, e S. João Nepomeceno.
Na nave da parte da Epistola, entrando pela porta, que lhe corresponde, tem três altares
na forma seguinte, o da Senhora das Candeas, o do Senhor Jesus, e o das Almas; e da
parte do Evangelho, entrando pela outra porta collateral, o altar de S. Eloy, o altar dos
Santos Chrispim e Chrispiniano, e o de Nossa Senhora da Alegria; estão todos os
referidos altares em capellas grandes com bellos retabolos, e ornados com decencia e
aceyo.
Tem esta Igreja hum grande coro alto, e duas excellentes Sanchristias, huma que serve
aos Padres della, e a Irmandade do Santissimo a outra: alem de outras cazas necessarias
para serviço da mesma Igreja; foy fundada pelo Serenissimo Senhor Cardeal D.
Henrique Arcebispo desta Metropole., e depoes \Rey/ deste Reyno e // e se acabou em
1563 e arruinandose parte da sua abobeda com o terremotto de 17 de Abril 1568, tempo
em que passava a [coroarse] com a Mitra de Lixboa a devoção que tinha ao gloriozo
Santo Orago della, e o amor desta filha primogenita do seu generozo espírito, fizerão
com que da penção que tinha reservado na de Evora, a mandasse reedifficar, gravandose
na porta principal para memoria dos vindouros a seguinte letra:


D. Antonio Archimandrita Sacrum
D. Emmanuelis Lusitanea Regis Pii Felicis, Invicti Filius Henricas S.R.E. Probiter
Cardinales: Primus Eborensis Archiepiscopus, priore directo novum hoc, longe
capaesius, forma, structura que augustius, religionis ergo erexit.


No mesmo lugar em que está hoje esta Igreja, estava antigamente huma mui pequena do
mesmo Santo, na qual se punha hum cura para administrar os Sacramentos, com mayor
commodidade a que se dava certa congrua, ficando os Perlados percebendo os fructos, e
dizimos com o titolo de Abbades, que depoes mudarão em Priores, no anno porem de
1380 sendo Bispo desta Diocese D. Martinho quinto do nome, fundou nella huma
Vigairaria com seus Beneficiados simplices para se celebrarem com mayor solemnidade
os divinos officios, e perserverou nesta forma ate 28 de Abril de 1565, em cujo anno o
Vigario que então era, renunciou o seu Benefício nas mãos do Senhor Arcebispo D.
João de Mello, que abolindo a Vigairania, instituio das suas rendas hum Reytor, e três
Beneficiados curados, para todos quatro administrarem os Sacramentos e com os seis
Beneficiados simplices resarem as horas canonicas no Coro.
Donde se ve, comporse a Gerarquia desta Igreja de hum Prior que he o Excelentissimo e
Reverendissimo Senhor Arcebispo, hum Reitor e tres Beneficiados todos (qua) // quatro
curados e seis Beneficiados simplices.
O rendimento do Priorado, era antigamente de doze mil cruzados, hoje pela
dismembração que se lhe fez para a Patriarchal, rende já muito menos, ficando sempre
com a obrigação de paramentar plenamente o grande corpo e maquina desta Igreja.
como o tem feyto o seu Excelentissimo Prior actual, que tem gasto nella huma grande
parte do seu rendimento.
Os mais beneficios são de tenue rendimento certo, supposto, que mais rendem com o
incerto: rende o Reitorado outenta mil reis cada anno; os beneficios curados sessenta
mil reis, e os simplices quarenta mil reis cada anno; todos são de alternativa do Papa
com o Prior, o qual tambem appresenta a Thesouraria em hum Presbitero.
Ha nesta Igreja sinco confrarias, que são a do Santissimo Sacramento, a do Senhor
Jesus, a de Nossa Senhora dos Praseres, a de S. Chrispim, e a das Almas; celebrãose
nella muitas festividades com grande custo, e magnificiencia, e no discurso do anno
sahem della muitas procissões, e entre estas a da Bulla, que se recolhe na Sé de grande
concurso, e em todo o anno he a mesma Igreja de muito por ficar na parte mais nobre da
Cidade, e constar de huma grande porção della composta de mil cento, e outenta e sinco
fogos, com quatro mil duzentas e quarenta e sette pessoas entre mayores. e menores.
Nella ordinariamente pela sua grande capacidade administrão os Perlados o Sacramento
da Confirmação: nella se fez aquella celebre junta dos principais Senhores Eborenses
para passificar o povo nas bem sabidas alterações: da cidade, principio felice da
restauração do Reyno, que com o nome supposto do doudo Manoelinho ameaçavão a
ultima [...], e finalmente no seu grande taboleyro, se celebrarão os quatro grandes autos
da Fé, que houve desde 1706 ate 1716.
Defronte deste Templo estava hum pórtico romano(1), com três arcos triunfais, ornado de
diversas ordens de colunas alquitravas, frizos e (ni) // nichos, e estátuas de preciozo
marmore, que occupava com pompoza prespectiva todo o largo da Praça, o qual
transformou em fonte El Rey D. João Terceyro, dirigindo a elle o curso da agoa da
prata, que principiou a correr no mesmo em 1535, e porque esta grande fabrica com a
sua corpolencia impedia a vista, ou eclizava o prospecto da magestoza fabrica do
mesmo Templo, o mesmo Serenissimo Senhor Cardeal Rey fundador delle, mandou
demollir tão honrada antigalha, de que só se approvetarão as grandes colunas, que hoje
estão no grande refeytório dos Padres da Companhia desta Cidade, as da Igreja do
Convento de Valverde, e as que estão no tranzito da Sanchristia do Convento de S.
Francisco, e para que se não estranhasse a falta desta precioza memonia, o mesmo
Principe mandou fazer para substituir em seu lugar, a soberba fonte, que nelle se vê
chamada da Praça, que hé a melhor de todas as da Cidade; hé esta de finos marmores, e
a tassa principal, que hé de huma só pedra, tem de circunferência sincoenta, e hum
palmo com outo carrancas de bronze, que vomitão outo rios de agoa, numero
proporcionado às outo ruas, que tem a Praça; está coroada com coroa imperial como
imperatris das fontes, o que vendo El Rey Felippe Primeyro, admirando a sua beleza,
dizem, que dicera bien meresse ser coronada.
Ha dentro dos limittes desta freguezia seis conventos, três de religiozos, e de religiozas
outros tres, e hum recolhimento de terceyras do carmo, que são os seguintes
O Convento de S. Francisco de religiozos do mesmo Santo observantes da Provincia
dos Algarves; foy fundado ainda em vida do Serafico Patriarcha pouco mais de dous
annos antes da sua morte, porque se lhe deu principio no anno de 1224: dotarao-no os
Cidadãos de Evora de muitas rendas; e lhe derão para sua habitação todo o espasso que
vay da porta do Raymundo até // (até) à do Roxio; e cresceu a fabrica com tanta
magnificência, que era chamado o Convento de ouro, tinha três claustros, dous grandes
refeytorios, era celebre a sua livraria pela grandeza, e copia de livros, há memoria de ter
três igrejas, e de outras tantas ruinas e de huma consta que tinha sette naves, foy
Metropole, e cabeça da Provincia com caza de estudos, em que se occupavão outenta
entre os quais havia letrados famozos, tendo porem chegado ao auge desta grandeza,
principiarão a padecer os religiozos grandissimos apertos desde o tempo de El Rey D.
Affonso quinto, que fazendo do Convento Palacio o reduzio a Capucho, ate que se
acabou esta vexação no tempo dos Felippes; os primeyros religiozos desde a sua
fundação, erão claustrais até que no anno de 1513 passou a observantes, unindose as
suas rendas ao Mosteyro de Santa Clara desta Cidade de Religiozas do mesmo Santo
urbanas. O Convento, que hoje tem \hé/ notável, e mui grande, por estarem nelle
incorporadas muitas cazas do Palacio Real, a sua Igreja foy a primeyra Capella Real,
que houve neste Reyno, e hé huma maravilha da arte, por que sendo de grande altura, e
tendo de largo não entrando o vão das Capellas, sessenta palmos, e duzentos e dezouto
de comprido sem haver parede, que exceda a grossura de tres palmos, nem passando as
semalhas das Capellas demais de dous terços de altura, parece se firma no ar a sua
abobeda por falta de acompanhamento; edifficoua El Rey D. João Segundo, e a acabou
El Rey D. Manuel; hé o Convento o segundo da Provincia, tem caza de estudos, e
grande numero de Religiozos, e tem florecido nelle muitos sojeitos em virtudes, e letras:
he Padroeyro deste Convento El Rey.
O Segundo convento hé o de S. Domingos de Religiozos do mesmo Santo, fundado no
sittio em que antigamente estava a Ermida da Victoria no anno de 1278; o Senado lhe
deu o sittio, que occupa toda // (toda) a sua cerca, e Martim Annes fidalgo Eborense e
sua molher D. Catharina, lhe doarão toda a fazenda de que erão Senhores, que era
muita, sem mais encargo, que huma missa quotidianna, com cujo legado, se aperfeiçoou
o Convento e fes a Igreja; porem porque esta era pequena para o numero dos sojeytos a
que depoes cresceu o Convento, os dous patricios Eborenses D. Pedro de Sousa, e D.
Joanna de Mello primeyros Condes do Prado, a augmentarão, pello que em signal de
agradecimento, se lhe deu jasigo na Capella Mor, em que estão sepultados; o Convento
hé mui nobre com hum ayroso e alegre claustro, e no meyo huma fonte de agoa da
prata, que foy a primeyra, que concedeu El Rey D. João 3°. por fazer este obzequio ao
grande Lucio Andre de Rezende Religiozo desta Religião, e só depoes, que se lhe
concedeo a este semelhante graça, a alcançarão os mais Conventos da Cidade. Tem
florecido neste Convento muitos religiozos de grandes virtudes e letras, e entre elles o
venerável P. Fr. Luis de Granada, que nelle se perfilhou, e viveo muitos annos; hé casa
de estudos com muitos religiozos.
O terceyro Convento hé o de Nossa Senhora das Merces de Religiozos Agostinhos
descalços, que primeyro morarão na rua, a que chamão Fria, junto ao sittio dos
Castellos, \ com humas cazas / que para sua habitação lhe deu o Reverendo Bacharel
desta Sé de Évora Luis Conforte Correa, nas quais assistirão desde 18 de Dezembro de
1669, até 6 de Julho 1680, em cujo dia se mudarão para o Palacio que tinhão comprado
aos Senhores de Bobadella sitto na rua do Raymundo, em que agora está este Convento,
que he de bom dezenho, mas tem ainda muitas officinas incompletas, tem huma bella
Igreja, da qual hé orago a Senhora das Merces, que he a mesma, que com o titolo do
Presépio, tinha no seu oratorio a Rainha D. Luiza, hé de muita devoção, e millagroza,
como diz Fr. Agostinho de Santa Maria no seu Sanctuario Mariano. Dizem ser (Pa-) //
Padroeyro deste Convento El Rey; he caza de estudos: e tioressem nelle bons sojeitos.
Convento de Religiozas
O Convento de Santa Clara, sittuado na rua de Alconchel; foy fundado no anno de 1440
pelo Eborense D. Vasco Varella Perdigão Bispo desta Diocese, que lhe assignou das
rendas pontificias hum pingue dotte, mas porque lhe faltou o consenço Pontificio,
esteve esta fundação a perigo de sufocar no berço. Succedeo na Mitra o grande Cardeal
Alpedrinha, D. George da Costa, que não só confirmou a instituição de seu predecessor,
mas lhe procurou a confirmação Apostolica, a que não obstante ainda se lhe moverão
varias duvidas, que se acabarão pela sentença, que ultimamente pronunciou o Infante
Cardeal D. Affonso ultimo Bispo de Évora. He a fabrica deste Convento muito regullar,
e excellente, e a sua Igreja huma das mais bellas da Provincia e dos Conventos mais
bem dottados della, foy de Religiozas claustrais ate ao anno de 1535, em que passarão a
observantes, e são sojeitas ao Padre Provincial da Provincia dos Algarves; crescerão
muito a suas rendas com as que se lhe unirão dos Religiozos claustrais Franciscanos
extinctos, e com as perpetuas, que lhe doarão Garcia de Menezes, e D. Izabel de Castro,
por cujo beneficio; e reedifição da Capella Mor da Igreja com approvação do Papa lhe
derão o padroado della, onde estão sepultados, em nobilissimo mausoleo; e tem
florecido neste Convento muitas Reliozas de que rende observancia e virtude.
O Segundo Convento há de Santa Catharina: teve a sua origem em 1400 no Palacio dos
famozos Estaços junto ao adro de S. Domingos por certas senhoras da mesma familia a
que se agregarão outras donzellas, que por espasso de 85 annos fizerão nesta habitação
huma exemplarissima vida dezejosas porem de mayor \ perfeição / no anno de 1485, por
conselho dos seus confessores os Padres Dominicos, doarão as que existião todos os
seus bens ao Recolhimento, e professarão a 3ª. regra de S. Domingos, no que
perseverarão ate ao anno de 1519, em que alcançarão da Sé Apostólica (lic-) // licença
para professarem a primeyra ordem e como este Recolhimento, que há hoje o de Santa
Martha de Beatas 3ªs. do Carmo \não fosse suficiente /, se fundou o novo Mosteyro no
sittio em que estava huma Ermida de Santa Catharina que para este effeyto lhe doou o
Conde do Vimiozo, e se mudarão as Religiozas para o novo Convento em 24 de Abril
de 1547?,em solemne procissão; foy o seu Padroeyro D. Afonso filho do dito Conde,
com o provimento de dous lugares. O Convento há excellente, e a sua Igreja hum
diliciozo Paraizo, hé sojeito ao Provincial de S. Domingos, tem florecido nelle
Religiozas de grande exemplo, e do mesmo sahirão as primeyras fundadoras do
Conventos do Bom Pastor de Azeytão, e do Sacramento de Lixboa.
O terceyro convento hé o do Calvário sittuado na formoza e espassosa rua da Lagoa;
fundou-o a Infante D. Maria filha de El Rey D. Manoel, e de sua terceyra molher a
Rainha D. Leonor irmaa do Imperador Carlos 5° à instancia do Serenissimo Senhor
Cardeal D. Henrique, que vendo aquella Princesa tão inclinada a obra de piedade, e que
nellas despendia o larguissimo patrimonio de que era Senhora, e persuadiu a que fizesse
este convento que se edificou conforme as regras da Santa pobresa, e pella planta, que
tinha ideado o mesmo Serenissimo Cardeal para o que em 1570 fes doação da Ermida
de Santa Elena no monte do Calvário o Senhor Arcebispo D. João de Mello, e com tal
fervor se principiou a fabrica que aos 23 de Outubro de 1574 foy habitada. He este
convento muito bom, e a sua Igreja mui linda, hé sojeito ao Provincial da Província dos
Algarves: o número das Religiosas hé de 24, cuja vida hé viver de esmollas, não comem
carne, nem tem dia que não seja de jejum excepto o de Natal e Domingos, a Camiza que
vestem há de lãa e o habito, çapatos os que lhe deu a naturesa, a cama huma cortissa, o
cobertor huma manta, os exercicios de piedade, e de religião são continuos, as
penitencias, e horas de oração muitas, pelo que tem merecido este Convento da divina
Liberalidade notaveis favores, e privilegios; porque muitas // (muitas) vezes faltando o
provimento para a comunidade se achou na portaria, sem saber quem o trouxera, e não
se ignorar quem o mandava: muitas vezes cresceo o trigo no celleyro; e o aseyte nas
talhas; em todas as pestes, que padeceu Évora; que foram muitas, nunca se atreverão a
contaminar esta Thebaida, nem os corijeos ?? tem perdido o respeito a este Sagrado
domicillio; muitas vezes se a Sanchristáa não desperta, tem os Anjos tocado as Matinas,
e muitas ajudado a cantar os divinos louvores no coro; e finalmente este convento hé
abençoado de Deos pela inalteravel observancia que nelle floresse; deile sahirão em
1707 as primeyras quatro fundadoras do Convento do Louriçal do Bispado de Coimbra,
e se se houvessem de referir todas as que pelas suas virtudes merecem espessial
memoria sem excepção de alguma se escreverião as que tem sido Religiosas deste
Convento.
Ha mais nesta freguezia o Recolhimento de Santa Martha, a que vuigarmente chamão
das Beatas, e foy primeiro habitação das Religiozas Dominicas de S. Catharina, que
depoes de se mudarem para este Convento, ficando dezerto hum lugar em que se tinhão
offerecido a Deos Nosso Senhor tantos louvores por espasso de 147 annos, o comprou
Anna de S. José, e passando a viver nelle com suas irmans, e algumas outras donzellas,
derão de novo principio ao Recolhimento de S. Martha; professão as recolhidas a ordem
terceyra do Carmo, são sojeytas ao Ordinario, resão o officio divino no Coro, tem
muitos exercicios devottos, e vivem com grande observancia.
Ermidas
1ª A Ermida de Santa Martha tão antiga, que se não pode averiguar a sua fundação, mas
de bella arquitectura, e tão rica e custozamente aceada que hé huma das melhores
Igrejas da Cidade, nella tem a sua numeroza Irmandade os veneraveis sacerdotes
eborenses, que tem o titolo das almas hé de nottavel rendimento, o qual se distribue
tambem e // (e) com tanta exacção como mostrão a multidão de sacrificios, que na dita
Igreja se offerecem a Deos, nas muitas pessas com que se enriquesse, e na grande
Caridade que se tem com os irmaos pobres enfermos até os levarem à sepultura, e
suifragios que depoes se lhe fazem; foy esta Igreja antigamente freguezia e serve
tambem de Igreja das Recolhidas de Santa Martha.
2. A Ermida de S. João Bautista vulgarmente chamada S. Joaninha junto ao Convento
de S. Francisco, tambem se ignora o seu fundador, mas pela forma da arquitetura,
parece ser do decimo quinto seculo, e como El Rey D. Affonso quinto viveo tantos
annos em Évora com a Rainha D. Izabel que era devotissima do mesmo Santo
conjecturase ser fundação sua; tambem foy freguezia, e servio de caza de Mizericordia
desde o anno de 1499 ate ao de 1554, em que se mudou a mesma Irmandade para a
grande casa, que hoje tem.
3. A Ermida de Nossa Senhora do Pé da Cruz chamada vulgarmente a Capelinha, nome
que da tambem ao bairro em que esta sittuada, hé pequena, e foy fundada com as
esmollas dos fieis.
4. A Ermida de Nossa Senhora das Brottas junto à porta do Raymundo fundoua o
Conego Francisco Borralho, hé o templo sufficiente, e de muita devoção à Senhora,
5. A Ermida de Nossa Senhora da Ajuda, fundada sobre a porta da rua de Alconchel.
foy feita com as esmollas do povo, hé pequena mas muito aceada, e a Imagem da
Senhora millagroza.
6. A Ermida de Nossa Senhora dos Santos Reys sitta em hum angolo do Real palacio
dos Estaos defronte das grades da cadea, foy fundada pelo Alcaide Mor de Évora seu
cidadão D. Fernando de Mello, o qual reformando aquelles carceres com catholica
piedade a mandou se fazer para ouvirem missa os prezos, e lhe não faltasse este subsidio
espiritual estabelecendo estipendio certo para o Capellão, que lhe diz missa nos
Domingos e dias sanc- // sanctos. Todas as referidas Ermidas são do Perlado, menos
esta ultima que he da Camera.
Há mais no destnicto destricto desta minha freguezia, o Monte da Piedade a que
tambem \chamão/ Celleyro do depozito, ou Commum; foy instituido pelo Senhor
Cardeal Infante D. Henrique com alvará de El Rey D. Sehastião em 1576, e hé o
remedio de todos os pobres lavradores; consiste em huma grossa quantidade de moyos
de trigo, que se guarda em huma salla do Real Pallacio de S. Francisco; unica reliquia
que de tão grande fabrica existe, e se reparte quando se principião as sementeyras com
grande igualdade e rectidão pelas pessoas desta Cidade e termo, que semeão, sem mais
obrigação do que darem hum limitado acrescimo no tempo da colheita para conservação
do mesmo Monte; hé governado por três deputados, hum ecelesiástico, que de três em
três annos nomea o Perlado, hum Ministro secular, e bom Cidadão, e alem destes tem
outros officiais inferiores para boa expedição do que pertence ao mesmo monte.
São os limittes desta freguezia dentro dos muros da Cidade, porque fora delles não tem
caza alguma, e lhe servem os mesmos de baliza desde a porta da Lagoa ate a porta do
Roxio, tem muitas ruas nobres, e as mais principais da cidade com grandes casas, que as
emnobressem e fazem vistozas, nellas alem dos dous palacios reais, de S. Francisco
reduzido a ruinas, e dos Estaos, tem outros de pessoas principais como o dos Mellos,
dos Gamas Lobos, dos Macedos, dos Pesanhas Falcões e dos Mesquitas, e nella
morarão muitas pessoas das mais illustres do Reyno.
Tem sido esta cidade berço felix de heroes famosos, porque os filhos, e cidadões de
Évora em todas as idades, e em todas as artes forão famosos assignalandose igualmente
na pas e na guerra, nas escollas e nas campanhas, no valor e na piedade, no seculo e no
claustro, no Reyno, e nas conquistas; porem porque se não pode affirmar se pertencem
ou não a esta fteguezia de S. Antão, ou em qual das (da) // da Cidade forão bautizados
pela falta de assentos, e de Livros, porque estes só os há desde a era de 500 ate ao
presente, costume que introdosio nesta Diocese o Senhor Infante Cardeal D. Affonso
seu ultimo Bispo, e que depoes abraçou o Concilio de Trento e toda a Igreja Catholica,
não os escrevo por não roubar às outras parochias desta Cidade esta gloria, e por me
parecer ser isto mais proprio do Parocho da freguezia principal; a tem de que são já bem
vulgares, por que o P. Fonseca na sua Evora gloriosa trata dos que pode a sua diligencia
descobrir e assim parece escusado repettillos outra vez.
Ao mais que se pergunta não tenho que responder. Evora 13 de Julho de 1758.
O Reitor Domingos Cardozo

(1) Tratar-se-ia, realmente, de um pórtico romano com as características mencionadas? Porque é que André de Resende não o referiu no seu livro “Antiguidades de Évora”, uma vez que seria uma obra
arquitectónica de grande vulto?



Transcrição: Maria Ludovina Grilo
Revisão: Francisco Segurado
GRILO, Maria Ludovina B. – O Concelho de Évora nas Memórias Paroquiais de 1758
(Conclusão). A Cidade de Évora. Évora: Câmara Municipal. 2ª Serie, nº 1 (1994-95),
pp. 89- 156.

1758 Julho 4 - Santiago
Memória Paroquial de Santiago, Évora (Freguesia suprimida em 1840, doi anexada à freguesia de Santo Antão)
[ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 14, nº 111a, pp. 85 a 1243]

Li o papel que me foi entregue, e informarei sobre o que se procura saber, sem divizão
de interrogatórios, por me pareser que desta sorte o farei com mayor formalidade,
respondendo a todos do que a cada hum; deixarei de informar daquelles de que não ha
de quê; e não falarei sobre o todo da Cidade, assim porque outros o escreverão, como
por me pareser pertense à Cathedral, cujo reverendo Parocho com deligente exame e
estylo aureo, o fará elegantemente.
A Cidade de Evora he ne gerarchia a segunda do Reyno Metropole do Alem-Tejo, a
que são sufraganeos os bispados do Algarve e Elvas ; he e sempre foi da Coroa , de sua
antiguidade situasão, beneficencia de ares, divizão de comarquas, fertilidade de frutos ,
amenidade de sitios, e das mais qualidades, e circunstancias que a ornão, e porque se fas
digna de grandes elogios, escreverão com bem aparada penna, varios historiadores, de
que foi o ultimo o P. Francisco de Foncequa no seu Livro, a que deu o titulo = Evora
glorioza = e assim dexo de falar no que está escrito, já por desnecessario, já por não ser
fastidiozo e ja porque não posso dizer tanto nem tão bem.
Tem cinco freguezias dentro dos seus muros; e porque cada hum dos seus reverendos
Parochos, dirá com grande exame, averiguação, e eloquensia, a que pertense ao seu
destricto, falarei somente, no que // 852 respectivamente pertense aos limites da minha.
A Igreja de S. Thiago he hoje na serie a terceira, della fala o P. Foncequa no nº. 388;
não consta da sua antiguidade, e criasão se desta ha titulo, so podera estar no archyvo do
Reverendo Cabido, onde se guardão as melhores noticias e mais estimaveis papeis.
Foi della Prior D. Martinho de Portugal, e ao mesmo tempo simultaneamente Bispo, ou
Arcebispo do Funchal, embaxador de Sua Majestade na Corte de Roma de que fas
mensão Fr. Padre Monteiro na Historia Academica da inquisição L°.2 pag. 432.
Sucudiulhe por sua morte Luis Alvares de Azevedo capellão do Serenissimo Senhor
Cardial D. Henrique, a quem o mesmo Senhor a conferiu, como consta do auto de posse
que se acha no archyvo da mesma Igreja, foi este Prior varão eminente em virtudes, e
letras, por elles, e pella sua rara prudencia, e circunspecção, lhe forão cometidos alguns
ponderaveis negocios pello mesmo Serenisimo Senhor Cardial, e delle fas mensão o
dito P. Foncequa nº. 406.
Depois deste eggregio Prior, os mais que se lhe seguirão forão de ordinario, Menistros
do Santo Officio // 853 cujos servissos atenderão sempre benignamente os Serenissimos
Senhores Reys para lhes conferir este beneficio, e servisse do mesmo Tribunal atendeu
a piedade do augustissimo Senhor Rey D. João 5 de eterna saudade para o conferir, e o
augustisimo e fidelisimo Senhor D. Joze 1º. felizmente reynante para verificar a graça
no Prior actual.
A Igreja está no centro da cidade posto que mais chegada para a parte do Norte, situada
em huma quase planicie, tem a porta principal para o pohente , e para esta se sobe por
huma magestoza, e bem formada escada de pedra marmore; no frontispicio tem duas
engraçadas torres, huma que serve para os sinos, outra para a correspondencia; as quaes
com o magestozo da escada, janello, e remate do frontispicio fazem huma aggradavel
prespectiva.
Tem outra porta para o Sul, mais facil ao ingresso dos fieis; as paredes della interiores
são azulejadas athe à simalha tudo em painéis com passos da Escritura, os gigantes em
que se firmão os arcos da abobeda, tecto, e paredes do choro, he tudo primorozamente
pintado, como tambem o mesmo choro pella parte inferior, que tudo faz huma deleitavel
vista.
Hé de huma so nave // 854 não hé grande, mas ayroza e dezafogada; tem cinco capellas;
a maior vestida de azulejo, ornada com hum ratabolo de talha dourada, no alto da
capella hum escudo com as armas reaes, no trono da tribuna tem collocada a Imagem de
Nossa Senhora da Esperansa, antigamente de munta devosão, e no lado do Evangelho a
imagem de S. Thiago, correspondente à de S. Ivo, que está na da Epistola. A 1ª. Capella
do lado do Evangelho he de Nossa Senhora das Dores, em que a devosão, e zelo da sua
Irmandade mandou fazer bom primorozo retabolo e na tribuna está collocada, a
veneravel e piedoza Imagem da mesma Senhora com grande decencia.
A 2ª. Capella da mesma parte, he de S. Barbara, tem retabolo novo, e dourado, e nesta
Capella se acha e venera collocada a imagem da mesma Santa; está com aceyo, e atrahe
a devosão, e tem desta glorioza martir huma veneravel reliquia.
A lª. Capella do lado da Epistola hé de S. Bras, tem retabolo dourado, tem huma bella
imagem do mesmo Santo e tem deste gloriozo martir huma admiravel reliquia.
A 2ª. Capella do mesmo lado, he // 855 de S. Anna, tem nova abobeda, e pintada, está
novamente azulejada ao moderno, e tem hum excellente e novo retabolo, tudo mandado
fazer por despeza e devosão do Prior actual; na tribuna está collocada a veneravel e
devota imagem da Santa, de espicial devosão para os fieis; tem Sacrario, e nelle
depozitada huma reliquia da mesma, em huma moderna, e primoroza custodia de prata
feita á romana com grande primor, e mandada fazer, por disvelo, e dispendio do mesmo
Prior.
He o corpo da Igreja largo, e na sua fronteria tem as três capellas, principal, de Nossa
Senhora das Dores, e de S. Bras, e sobre estas, payneis de perfeitas imagens, e o resto
de toda a parede de munto vistozas pinturas, que tudo não só excita a devosão, mas
lizorigea, e recreya a vista.
O orago desta Igreja hé de S. Thiago; não consta de sua origem, e creasão, della poderá
haver noticia nos estirnaveis papeis que se guardão no archyvo do Reverendo Cabbido
insectáveis a pessoa alguma; tem a Igreja bem dezafogado choro onde se rezão as horas
cannonicas, excellente sachristia, e os mais comodos necessarios.
Tem duas Irmandades, huma do Santisimo Sacramento, e outra de Nossa Senhora das
Dores; desta he comissario o Prior, todos os quartos (Do-) // 856 Domingos do mez fas
esta Irmandade humo procissão pello Corpo da Igreja rezando alternadamente a Coroa
doloroza, que capitula o mesmo Prior comisario com offeressimentos de munta piedade
e ternura, assistem a este piedozo, e devoto acto, os Irmãos, e muntos fieis que não o
são, com grande sezudeza, gravidade e devosão, e acabada a practica digo acabada a
Coroa, ha practica, em que [...] se persuade a frequencia daquelle santo exercicio, mas
com espicialidade a extirpasão dos vicios, e reformação dos costumes, a que tambem o
Prior promove com a eficacia que pode, de que resulta grande edificação, e muntas
lagrimas.
Tem esta Igreja Prior, outo beneficiados simplices, e bem Capellão; a administrasão dos
sacramentos pertense unicamente ao Prior que em todos os tempos teve sempre
coadjutor que o aliviasse; he priorado do padroado real, e o aprezentão os augustisimos
Senhores Reys; e posta que regularmente falando, os Priores das mais Igrejas do
padroado real tenhão a regalia de aprezentar os beneficios de suas Igrejas, nesta não
acho memoria desta regalia, e se apresentão altarnativamente, pellos Excelentissimos e
Reverendissimos Senhores Ordinarios, e Santa See Apostolica.
O rendimento do priorado esta hoje munto deminuto, por se lhe haverem tirado cinco
partes das outo que percebia, sobre a validade // 857 da extracção de quatro partes teve
o Prior Manoel Mendes Botelho Inquizidor do Santo Officio, primeira e segunda
demanda com o Reverendo Cabbido, e se decidiu na segunda que este se conservasse na
posse que tinha de as perceber, cuja decizão de fundamento para duvidar da legalidade
do titulo, mas todos estes documentos se conservão no archyvo do mesmo Reverendo
Cabbido, donde se não podem extrahir, e por isso se não pode dar mais individual
informação.
Como o rendimento consiste em fructos, cuja quantidade e valor he incerto, não pode o
tal rendimento diresse sem a mesma incerteza, mas comportando huns, com outros
annos, renderão trezentos mil reis e paga o Prior as despezas de portas (de portas) a
dentro por todas as outo partes que lhe pertensião, e nada os interesados que recebem as
cinco que se lhe tirarão; cada hum dos beneficios rende cem mil reis huns annos por
outros.
Esta freguezia confina pella parte do Norte e do Poente com os muros da antiquisima, e
original Cidade; pella do Norte tem o destricto athe o sitio que chamão porta nova, de
que hoje não há mais que o nome, e com o arco de D. Izabel de que hoje não ha mais
que o arco, pello qual sendo naquele tempo porta da cidade entrou triunfante o famozo
Giraldo, que com grande valor, e industria, livrou Evora de poder dos Mouros; // 858 e
pella parte do Poente confina com os muros dos quaes não ha hoje mais vestigios que
servirem de alintes aos edificios que pello tempo se edificarão.
Tem no seu destricto dous Conventos ambos no terreiro chamado praça do pexe, hum
he o Collegio de S. Paulo primeiro eremita de Religiosos da mesma Ordem, verdadeiro
seminario de homens de grande talento, cujas letras e virtudes adornão as universidades,
honrão as cadeiras e dezempenhão os pulpitos com [...], com a sciencia, e com a
doutrina; da criasão, fundasão, e progreso deste louvavel Collegio, da materia, o P.
Foncequa n.n.: 672 e 673. onde refere alguns varoes eggregios, e [...] não individuos
outros, porque seria neceessario fazer bem grande escolio de todos.
Este Collegio esta fundado sobre os muros antigos, ainda hoje conserva huma grande
torre que antigamente serviu ou de adornar, ou de deffender a Cidade; tem alguma leve
ruina, não dos contratempos dos annos; ha de ordinario neste Collegio dous cursos, seus
Prelados e Mestres são tão vigilantes no governo, e magisterio, que os Collegiais e
mestres tem o estudo continuo, e o procedimento imaculado.
(O Outro Con-) // 859 O outro Convento he intitulado do Salvador, da sua fundasão,
situasão, e progreso, trata o P. Foncequa nn. 703., 704.. e 705. São as Religiozas, ou
Serafins delle, freiras urbanas de Santa Clara, o numero he de cincoenta a saber,
quarenta de veo preto, e dez de veo branco, as quaes servem o Convento, pois nelle não
ha outras creadas communs, nem particulares, e estão sugeitas aos Excelentissimos e
Reverendissimos Senhores Ordinarios.
Neste convento, ou pedaso de Ceo, se contão as almas justas pello numero das pessoas.
não tem religioza em quem não resplandesa a virtude; feliz Evora que tem nellas as
mais efficazes intercessoras, para aplacares rigores da justissa divina, receber favores,
por castigos; assim o reconhese toda a Cidade; não individuo exemplos, porque ainda
que para dentro do claustro são manifestos, no exterior a publico; há só a tradisão, por
ser tal a sua humildade com as mais virtudes, que fazem munto por não serem publicos
os seus effeitos. La fazem seus acentos dos favores do Ceo que recebem, mas não os
communicão, porque a publicidade não deminua o meressimento da virtude.
Roubandonos a consolasão da evidência, porque não possão perigar na vangloria
resplandesem na virtude exercitandoa e a augmentão […] todo o Cabedal de expresoes
he pequeno para os seus elogios, todo o encaressimento curto, toda a fraze // 860 (toda a
fraze) deminuta, toda a eloquencia groseira.
Tem a freguezia o numero de trezentas pessoas de ambos os sexos, e de todas as idades,
excepto as Religiões \e tem secenta e nove fogos/ ha nella dous palacios hum do
Excelentissimo Conde de Soure, outro do Excelentissimo Conde de Villa Nova; este he
antigo, mas amplo, tem huma alta torre, que o fas mais magestozo; defronte da porta do
seu pateo, está huma praça publica, e nella se achão fronteiros á porta, quatro marcos
altos em quadratura de quinze passos de huns a outros; ha tradisão servirem antigamente
de Couto, a que entrando qualquer delinquente nos limites delles tinha imunidade; não
pude averiguar mais da geral tradisão; os marcos são imemoriais, não ha noticia do
tempo, e motivo da sua [positura], só a poderá dar o Excelentissimo Conde que
conservara o titulo desta regalia, que a mim me faltarão os meyos.
Ha mais no destricto da freguezia outras muntas Cazas da primeira nobreza da Cidade,
entre ellas de Alvaro Joze de Carvalho, nas quaes ha huma elevada e bem formada torre
sem ruina alguma, esta edificada unida com a muralha velha, no tempo da antiga cidade
lhe servira de defensa, hoje á nova, de fermozura // 861.
Ha no mesmo destricto humas cazas grandes, mas antigas, servem de aposentadoria do
Inquisidor da primeira Cadeira, vulgarmente tem o nome de Cazas pintadas, e ha
tradisão, que nellas fora a Inquizição no seu principio, porem não tive meyos para
passar da tradisão para a certeza.
Nas costas da Igreja há as ruinas de hum edificio, que pellos vestigios da porta, paredes,
e sala, seria palacio, no tempo da Cidade primeira havia nellas aula de sinagoga, de que
era mestre Abrahatn Raby dos Judeos, e quando estes forão expulsos da Cidade;
elle pello commum dos Judeos foi fazer dezistencia das ditas cazas nas mãos do
Excelentissimo Bispo da mesma cidade D. Martinho, a cujo acto apareserão o Prior e
Beneficiados desta Igreja pella pessoa de seu procurador Vasco Lourenso, e
contradiserão, e impugnarão a dita demisão, e entrega, protestando não lhes prejudicar
ao direito que tenhão nas cazas sobreditas, de cujo protesto se fes instrumento publico
em 25 de Junho de 1363, pello tabellião Lourenço Martins, que se acha no archyvo da
Igreja e de então athe agora se não habitarão; esta falta de habitação e mais a ruina […
feitos], huma de horror do pecado, outra da diuturnidade do tempo.
Fes nesta igreja grande impresão, e effeito, o terremoto do 1 de Novembro de // 862 (de)
Novembro de 1755; mas a mayor foi no frontispicio interior della, o qual teve huma
grande abertura piramidal, que começou da raiz da mesma parede athe a abobeda, partiu
o arco e extrahiu grande parte della para fora do corpo em que descansava, e no mesmo
lugar experimentou a abobeda abertura, de grande danno, e mayor perigo.
Este eminente perigo, suspendeu fazendose na Igreja os officios divinos, as horas
cannonicas se rezavão na caza da Irmandade do Santissimo Sacramento, eu mudei logo
o sacrario para Capella de menos perigo, e danno, algumas missas se celebravão, não
sem grande susto, e os fieis se abstinhão do ingresso da Igreja, pello racional, e prudente
temor de sua total ruina.
Vendo eu, que esta Igreja não tem fabrica, e que se necessitava de prompto e instantanio
remedio, assim para impedir mayor estrago como para reparar a ruina que tinha, e
facilitar o seu ingresso aos fieis para o uso dos sacramentos, e frequencia de seus
exercicios espirituaes, e tudo estava suspenso, e impedido, fes logo apertoar a Igreja
com mastos, e com o mais espeques necessários, e fis se tomasem pella Igreja duzentos
mil reis a juro, com os quaes se acudiu a reparar o danno, antes que pasase a
irremidiavel; ficando a obrigasão do dezempenho, a quem por direito o tevese de os
pagar; e com effeito se acha reparada sufficientemente.
He o que posso informar do respectivo destricto desta freguezia, se o commum do
Povo tem regalias, izensões, e privilegios, estes titulos se guardão no archyvo do
Senado da Camera, donde me não foi facil extrahir formal, e indis idual noticia. Evora
4 de Julho de 1758
O Prior de S. Thiago de Évora Ignacio Murteyra de Fontez


Transcrição: Maria Ludovina Grilo
Revisão: Francisco Segurado


GRILO, Maria Ludovina B. – O Concelho de Évora nas Memórias Paroquiais de 1758
(Conclusão). A Cidade de Évora. Évora: Câmara Municipal. 2ª Serie, nº 1 (1994-95),
pp. 89- 156.

1758 Abril 15 - S. Vicente do Pigeiro
Memória Paroquial de S. Vicente do Pigeiro, Évora
[ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 29, nº 173, pp. 1241 a 1243]

O Padre José Dias pároco da freguezia de Sam Vicente do Pigueiro(1)? da cidade de
Évora responde aos interrogatórios que [...] de Sua Magestade mandou o Secretário de
Estado dos Negócios do Reino ao Excellentissimo e Reverendissimo Senhor Arcebispo
de Évora responde na forma seguinte.

1. Pergunta o primeiro interrogatório Em que Provincia fica, a que bispado, comarca,
termo e freguezia o é ao presente?
Resposta: Fica esta freguezia(2) na Província do Alentejo [por ser] arcebispado, comarca,
e termo da cidade de Évora.

2. Pergunta o segundo se hé delRey, ou de donatário e quem o hé ao prezente.
Resposta: He del Rey, nam tem donatário.

3. Pergunta a terceyra quantos vizinhos tem e o número das pessoas
Resposta: Tem quarenta e três vizinhos, e duzentas e setenta e nove pessoas.

4. Pergunta o quarto se está situada em campina, valle ou monte e que povoações se
descobrem della e quanto dista. Resposta: Está esta Igreja desta freguezia situada em
hum monte e as povoações que della se descobrem são a cidade de Évora da qual dista
sinco legoas, e a villa de Evoramonte da qual tambem dista sinco legoas.

5. Pergunta o quinto se tem termo seu, que lugares ou aldeas comprehende, como se
chamam e quantos vezinhos tem?
Resposta: Nam tem termo seu; porque he termo da cidade de Évora, comprehende huma
aldea a qual chamão a Vendinha; tem quarenta e outo vezinhos e sento e sincoenta e três
pessoas.

6. Pergunta o sexto, se a paróquia está fora do lugar ou dentro delle, e quantos lugares
ou aldeas comprehende a freguezia todos pellos seus nomes.
Resposta: A Paróquia está [situada] em hum monte e nam tem mais vezinhos que o cura
e irmitam; nem tem mais lugares ou aldeas do que a que vay declarada no interrogatorio
quinto.

7. Pergunta o setimo qual hé o seu orago, quantos altares tem e de santos, quantas naves
tem, se tem irmandades, quantas, e de santos.
Resposta: O seu orago he Sam Vicente de Fora (vulgarmente chamado Sam Vicente do
Pigeiro)(3). Tem quatro altares: o altar mor que he de Sam Vicente: dous colatraes: o da
parte da Epístola he de Santo // De Santo António, o da parte do Evangelho he de Nossa
Senhora da Luz e outro, que está na parede da Igreja da parte direyta que he de Nossa
Senhora do Rozário; nam tem mais que huma nave e tem huma Irmandade somente de
Nossa Senhora do Rozário.

8. Pergunta o outavo, se o Pároco hé cura, vigário ou reitor, ou abade, e que
apresentação tem e que renda tem?
Resposta: O pároco hé cura e hé da aprezentação do Excellentissimo e Reverendissimo
Senhor Ordinário rende pouco mais ou menos sinco moyos de trigo e hum de cevada
Aos interrogatórios nove, dez, onze, doze, não há que responder, porque nesta
freguezia nam há beneficiados, nem convento algum nem hospital nem Mizericórdia.

13. Pergunta o decimo terceiro se tem algumas ermidas, e de que santos, se estão dentro
ou fora do lugar, e a quem pertencem?
Resposta: Tem esta freguezia huma ermida de Sam Domingos fora da aldea em huma
herdade do Illustrissimo e Excellentissimo Conde Barão e a elle pertencia porque he da
jurisdiçam do Excellentissimo e Reverendissimo ordinario. E andasse fazendo outra em
huma herdade dos Religiosos do Espinheiro da cidade de Évora, chamada a Abegoaria,
para colocarem nella huma Imagem de Nossa Senhora da Piedade(4), que tem em hum
oratório particular nas cozas do monte da ditta herdade; a qual ermida se fez com as
esmolas dos fiéis que ao tal oratório concorrem a venerar a Santa, porque se dis suara
cupioza agoa no dia onze de Dezembro de mil e sette centos sincoenta e sinco, na
madrugada do qual dia fes hum grande […] porém nam está autenticado o tal pordigio e
tem sua dificuldade por ser a Imagem de barro.

14.Pergunta o décimo quarto se acodem a ella romagem sempre ou em alguns dias do
anno, e quaes sam estes?
Resposta: A este mesmo oratório concorrem suas romagens por todo o anno e pello
Veram he festejada a Senhora com festas publicas das freguezias circunvizinhas, nam
em dias determinados, mas sim quando cada hum quer.

15. Pergunta o décimo quinto quaes sam os frutos da terra que os moradores recolhem
em mayor abundância
Resposta: Os frutos que os moradores desta freguezia colhem em a mayor abundância
sam trigo, sevada e senteyo.

16. Pergunta o decimo sexto se tem juiz ordinário, etc. câmara ou se está susujeita ao
governo das justiças de outra terra, e qual he esta?
Resposta: Tem esta freguezia juiz de vintena sujeito [ao juiz ordinario] das justiças da
cidade de Évora. //

Aos interrogatórios décimo septimo, decimo outavo e decimo nono não há que
responder.

20. Pergunta o vigessimo se tem correyo, e em que dias da semana chega, e parte, e se
não tem de que correyo se serve, e quanto dista a terra aonde elle chega?
Resposta: Nam tem correyo, porque he campo, e se serve do correyo da cidade de
Évora, da qual dista sinco legoas.

21. Pergunta o vigessimo primeyro quanto dista da cidade capital do Bispado, e quanto
dista da capital do reino.
Resposta: Dista esta freguezia da cidade capital do Bispado sinco legoas, e
de Lisboa capital do Reyno dista vinte e sinco.

Aos interrogatórios vigessimo segundo vigessimo terceyro e vigessimo quarto e
vigessimo quinto, não há que responder.

26. Pergunta o vigessimo sexto se padeceo alguma ruina no terremoto de mil e sette
centos e sinncoenta e sinco, e em que, e se está já reparada
Resposta: A ruina que padeceo esta freguezia foy somente na Igreja, porque [lhe sahio]
o frontispício, o qual está já reparado, e raxou a abobeda da Igreja que ainda não está
consertada, porque nam he couza de perigo.

E não tem esta freguezia mais couza alguma de que se possa fazer mençam, porque
nem serra nem rio tem. E por verdade me asigney: Sam Vicente do Pigeyro 15 de
Abril de 1758
O Pároco Jozé Dias

(1) S. Vicente do Pigeiro: Freguesia rural do Concelho de Évora. O principal núcleo populacional e sede da
freguesia é Vendinha. Situa-se a cerca de 31km a Este de Évora e o seu acesso faz-se pela EN 256
(Evora- Reguengos de Monsaraz).
Área: 8 477 ha. População presente: 495 hab. (Censos 1991). Em 1864 tinha 440 habitantes: com a
implantacão da República esta freguesia foi anexada à Freguesia de S Manços, pelo que nos Censos de
1911 a 1950 não figura como freguesia. Em 1946 - DL n°. 35 927 de 1/11/1946 - adquiriu novamente
autonomia administrativa.
É uma freguesia muito antiga, não se sabendo, contudo, a data exacta da sua criação. O nome da freguesia tem origem na sua igreja paroquial, dedicada a S. Vicente, apesar do forte culto dedicado a Nossa Senhora da Luz.

(2) Igreja Paroquial: o edifício existente é de finais do séc. XVI, apesar de anteriormente já existir naquele local outro templo. Tem características ruralistas e possui, no seu interior, além do altar mór, dois altares de madeira dourada e policromada, com colunas salomónicas guarnecidas de aves, panos e uvas, de finais do séc. XVIII; destacam-se pelo seu valor artístico a pia de água benta, o retábulo dourado do altar-mór e a abóbada pintada com vários motivos e alguns pequenos quadros de iconografia tradicional de S. Vicente. Além do santo padroeiro. Nossa Senhora da Luz tem grande devoção popular, existindo algumas pinturas votivas, remontando as mais antigas a 1776.


(3) A Capela de Nossa Senhora da Piedade, situa-se no Monte da Abegoaria; esta propriedade pertenceu em 1462 à Mesa Episcopal de Évora e posteriormente ao Convento de Nossa Senhora do Espinheiro. O casario antigo é da época manuelina; a capela, que substituiu uma primitiva, deve ter sido inaugurada no último terço do séc. XVIII e o seu interior e de estilo rococó, possuindo um nicho axial onde se venera uma notável escultura gótica de Nossa Senhora da Piedade. Em 1985 foi classificada imóvel de interesse público. Existiu também nos limites desta freguesia a Capela de Nossa Senhora da Conceicão, nos Montes Claros. Actualmente encontra-se completamente arruminada, assim como o edifício de características acasteladas e rústicas, ao qual estava anexa. Esta propriedade pertenceu à Companhia de Jesus de 1561 a 1759, e devido a sua extinção, foi integrada nos bens da Casa Real.

(4) Aquando das tradicionais festas da Freguesia realizam-se duas Procissões: uma dedicada a S. Vicente (Padroeiro) e outra dedicada a Nossa Senhora da Luz, Santa de gratide devoção da populacão. Nos anos de grande calamidade, como, por exemplo, uma seca, realiza-se uma “procissão de preces” sendo levada a Imagem de Nossa Senhora da Luz da Igreja Paroquial até a Capela do Monte da Abegoaria, onde fica alguns dias. Na Igreja Paroquial existe também a Imagem de Nossa Senhora do Rosário, a quem a população chama a “viúva” (vestida de azul escuro), em antonomásia com a “solteira”, que é a Nossa Senhora da Luz (vestida de branco); atribuem-lhe características de “destrambelhada”, porque cada vez que sai da Igreja provoca incêndios, trovoadas, etc.


Transcrição: Maria Ludovina Grilo
Revisão: Francisco Segurado


GRILO, Maria Ludovina B. – O Concelho de Évora nas Memórias Paroquiais de 1758
(Conclusão). A Cidade de Évora. Évora: Câmara Municipal. 2ª Serie, nº 1 (1994-95),
pp. 89- 156.
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