Memórias Paroquiais

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Évora - Nossa Senhora da Graça do Divor

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1758 Junho 6 - Nossa Senhora da Graça do Divor
Memória Paroquial de Nossa Senhora da Graça do Divor, Évora
[ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 13, nº 18, pp. 107 a 110]

Respondendo aos interrogatorios para Sua Magestade
Fidelissima foy servido enviar a Vossa
Excelencia Reverendissima pella Secretaria do
Estado do Negocios do Reyno respondo ao
pertencente a esta Freguezia de Nossa Senhora da
Graça do Divor termo da cidade de Evora legoa e
meia distante da mesma cidade


Interrogatorios


ao 1º. Fica esta Freguezia de Nossa Senhora da Graça do Divor(1) na Provincia do
Alentejo, e pertence ao Arcebispado de Évora, e todo o território desta Freguezia he, e
esta dentro do termo da mesma cidade de Evora da que dista legoa e meia;

ao 2º. He o territorio desta freguezia da jurisdição real assim, e da mesma sorte, que a
cidade de Évora da qual hé termo, e compoem-se o ditto territorio de sincoenta, e duas
herdades, ainda que pequennas, e demenutas algumas, e sam de
certos e particulares senhores.

ao 3º. Tem ao prezente cento e sincoenta e sette vezinhos, ou moradores, que vivem em
cazas suas, ou em herdades de lavradores entrando em este número lavradores com suas
famillias, e criados, homens cazados, solteiros, veuvos que todos, ou cada hum destes
com suas famillias fazem a quantia setecentos e doze pessoas maiores ao prezente;

ao 4º. O território desta freguezia he em huma campina, que comprehende, e tem em si
varios valles, em que se produz mais quantidade, e porçam de trigo, que senteio, e
sevada, avista-se desta igreja e freguesia a villa de Estremoz, que dista desta igreja seis
legoas e a villa de Arraiolos, que dista legoa e meia;

ao 5º. Ao segundo interrogatório se dice se compunha esta freguezia e seu território de
sincoenta e duas herdades, que comprehende cento, e sincoenta, e sete pessoas que sam
o numero digo cazeiros, ou moradores, que fazem, por todos o numero de setecentos e
doze pessoas, que sam os fregueses desta mesma freguesia, e nam contem em si mais
lugar, que huma aldeia pequenna, chamada o Pumar do Lobo(2) sita junto a esta igreja em
a herdade {das Figuei} // das Figueyras do Lobo cuja herdade he de hum morgado de
Montemor o Novo chamado Felipe Lobo e as cazas da sobreditta aldeya sam de varios e
particulares pessoas que pagam seu foro anual ao proprio senhorio da mesma herdade;

ao 6º. Está a igreja(3) desta parochia de Nossa Senhora da Graça do Divor legoa e meya
distante da cidade de Évora da qual esta freguesia he termo como dice, em o primeiro
interrogatorio;

ao 7º. He o orago desta parochia de Nossa Senhora da Graça do Divor; tem tres altares,
o altar mayor he da Senhora da Graça, hum dos collatraes he da Virgemm e Senhora do
Rozario,e outro he do Gloriozo Santo Antonio, nam tem naves esta igreja por ser
estereita, tem duas Irmandades huma da Senhora do Rozario e outra das bendittas
Almas do Purgatorio;

ao 8º. O sacerdote, que governa no espirituall os freguezes desta parochia ao prezente he
parocho encomendado pello Excelentissimo Arcebispo de Evora, do qual he tambem a
sua datta, e aprezentaçam amovivel, e sem colaçam, asim como outras muntas que ha
deste genero, e della nam recebe, o parocho dizimos, porque pela sua congrua lhe pagão
os freguezes certa porção de trigo, e asim se acha estar lotada em trezentos e trinta
alqueires de trigo, e cento e sete alqueires de sevada ficando os dizimos reservados a
quem por direito antes da sua instituiçam pertencião;

ao 9º. Não tem beneficiados.

ao 10º. Não tem conventos.

ao 11º. Não tem hospittal.

ao 12º. Não tem caza de Mizericordia.

ao 13º. Tem esta freguezia de nota em seus limites varias capellas, que sam de
particulares senhores, como he huma em a herdade da Oliveira(4) cuja he de Antonio
Saldanha de Oliveira, morgado asistente em a corte e cidade de Lisboa // {Lisboa} com
o titullo de Nossa Senhora da Asumpsam com missa quotidianna e capellam e se lhe faz
festa em o dia quinze de Agosto por mandado do ditto morgado.
Ha outra capella sitta em a herdade do Monte de Pinheiros com o titulo de Nossa
Semhora da Nazare cuja herdade e capella he do morgado Francisco Joze Cordovil
morador em a cidade de Evora(5)
Ha outra em a herdade de Vale d’El Rey de Sima munto antiga com o titulo de Nosso
Senhor Romão de cuja nam memoria a quem pertença a qual festejam os moradores e
freguezes desta freguesia por devoçam em o dia proprio a nove de Agosto(6)
Ha outra cuja he dos Reverendos Conegos Regrantes em huma herdade sua chamada a
Abegoaria com o titulo de Nossa Senhora dos Remedios.
Ha outra em a herdade da Sempre Noyva com o titulo de Nosso Senhor Joze Cuja
herdade e capela he e pertence ao Excelentissimo Marques de Valenssa, e esta é (?) a
dos Reverendos Conegos Regrantes. Nam tem festa e a nenhuma acode romagem(7)

ao 15º. Os frutos que os moradores e freguezes desta freguezia colhem e recebem em
maior quantidade hé trigo, senteyo e sevada, mais trigo que senteyo, e mais senteyo que
sevada, em alguns annos bastante porçam de tremes mas em outros annos como hé o
prezente quaze nada.


ao 16º. Não ha em esta freguezia villa luggar, em que haja juis ordinario nem camera, e
como so dista legoa e meya da cidade de Evora tem juis de ventena, e asim está sugeita
a justiça de Evora.

ao 18º. Fica respondido em o primeyro interrogatorio como ja se dice.

ao 19º. e 20º. Nao tem esta freguesia que responder a elles.

ao 21º. Fica distante esta freguesia da cidade de Evora legoa e meya e da cidade de
Lisboa vinte e nove legoas.

ao 22º., 23º., 24º., 25º., 26º., 27º. Nam ha em esta freguezia que dizer a elles.

O que se procura dessa serra he o seguinte

Entre o numero de sincoenta e duas herdades, de que consta esta freguezia como se dice
em o segundo interrogatorio se acha huma com o nome de Mogos, que he dos religiosos
de São Hieronimo extramuros da cidade de Evora em a qual esta {hum ele} // hum
elevado alto chamado a Serra de Mogos breve na extensão, porque apenas se lhe sobe
ao cume se descobre todo por nam ter cumprimento nem largura ao que os moradores e
freguezes desta freguezia nam dão mais noticia nem em elle se acha mais couza alguma
que dizer ao interrogatorio da serra.

O que se procura saber desse rio he o seguinte

Em o territorio desta freguezia tem principio alguns rios, ou ribeiras cujos em os seus
nascimentos não teem nomes por pequenos, em a herdade chamada as Figueiras do
Lobo tem principio o rio ou ribeiro por nome Divor e este se conserva e nomea sempre
por elle, nam nasce caudellozo, corre para o nascente, tem hum moinho em a herdade da
Abegoaria, que he dos reverendos conegos regrantes de São Joam Evangelista, e desta
freguesia para a freguesia da Igrejinha termo da villa de Arraiolos donde conserva o
mesmo nome. Nasce outro em a herdade da Valeira para o Sul a que chamão a ribeira de
São Mathias por se emcaminhar, e passar medinto(?) a sobredita Igreja de São Mathias
termo da cidade de Evora. Nasce outro em os altos da herdade de Metrogos para o
Nascente, e se emcaminha para os coutos, e fazendas da cidade de Evora donde o
nomeão por Val Covo, e de todos estes nam ha que dizer ao seu curso nem mais
interogatorios pertencentes porque apenas quando chove correm, principiando os
calores e rigores do Sol teem acabado suas correntes. Ha sim outro rio mais excelente,
que nascendo de varias fontes correntes para o Nascente do Sol os antigos o
encaminharão para o Sul, e he a notavel Arquitectura dos Cannos da Agoa da Prata da
cidade de Evora(8), que tem seu primeiro principio em a sobredita herdade das Figueiras
do Lobo de que se fallou em o quinto interrogatorio e este por mais herdades sitios
quintas e fazendas que passe sempre conserva o primeiro e principal nome de
Arquitetura da Agoa da Pratta, e como os fregueses desta parochia o teem em a conta
dos rios nascentes desta freguesia tratto delle como rio e nam como fonte, e aos mais
interrogatorios asim da terra, serra, e rio nam se achou mais clareza alguma, nem couza
notavel que dizer nem digna de memoria desta freguezia e parochia de Nossa Senhora
da Graça do Divor termo da cidade de Évora.

Findo aos 6 de Junho de 1758 annos.

O Parocho Encomendado Joam Rozado Ramalho


(1) Freguesia rural do Concelho de Évora. Nos anos de 1911 e 1920 tinha anexadas as freguesias de S.
Sebastião da Giesteira, Nossa Senhora da Boa Fé, S. Brás do Regedouro, S. Matias, Nª. Srª. Tourega. Pelo
decreto nº. 12 509, de 18/10/1926 foram desanexadas, excepto a de S. Matias. Pelo DL nº. 27 424, de
31/12/1936, S. Matias passa a fazer parte desta freguesia. No Censo de 1864 figura com a designação de
Divor e a partir de 1878 figura Graça do Divor. Pelo DL nº. 39 448, de 23/10/1953, passou a ter a actual
designação. Situa-se a cerca de 12km de Évora. Área: 8 566ha. População presente (Dados preliminares
Censos/91): 436 habitantes. Segundo o Padre F. Fonseca, Op. Cit., p. 222, os romanos chamavam aquela
zona "campos elíseos" ou "campi divorum".


(2) Existe no rocio da aldeia da Graça do Divor um edifício de configuração oblonga, denominada a Casa
Antiga do Pomar do Lobo, em cuja fachada principal existe o brasão de mármore dos donatários - os
Lobos. A frente para o pomar, de alteroso arco para passagem da carruagem de lavoura, com outras
aberturas de ombreiras de pedra e bancos antigos, embora construída sem preocupações estéticas, tem
mais carácter e dignidade rural. Sobranceiros ficavam os jardins e horto, onde se veêm elementos do
século XVIII, compostoos por canteiros e bancos de repouso, semi-circulares, em obra de estuque; uma
fonte de planta rectangular com pilastras de massa e cobertura em tecto de remate piramidal; fragmentos
de cantaria aparelhada, e vasto tanque de lagedo no rebordo, que pode remontar ao século XVI. Túlio
Espanca, Op. Cit., p. 106

(3) Esta Igreja é da primeira metade do século XVII e substituiu uma que já existia em 1536, não se
conhecendo a data da sua fundação. O pórtico tem 3 arcos de volta perfeita e duas portadas rectangulares;
tem um frontão entrecortado e um nicho composto pela imagem da padroeira. No interior as paredes da
nave estão revestidas a azulejo rematados por uma curiosa barra de sereias amparando medalhões florais
de reminiscência renascentista. No cruzeiro existem dois altares colaterais em talha dourada, de estilo
barroco, e as paredes laterais estão revestidas de pinturas a fresco com figuras agiológicas. A capela-mor
tem altar de talha dourada, é encimada por abóbada de caixotões polícronos de estuque com figuração
antropomórfica e vegetal.- Dossier sobre as Freguesias Rurais de Evora. Textos. Feira de S. João/92

(4) O Morgadio da Oliveira foi instituido em 13 de Agosto de 1268, pelo Arcebispo de Braga D. Martinho
de Oliveira, eborense e antigo cónego da Sé de Évora, mestre do príncipe D. Afonso, primogenito de D.
Dinis, grande erudito e embaixador nas cortes de Roma e Espanha. A instituição deste Morgadio tinha a
condição de "[...] que mulher nenhuma do meu linhagem nem estranha nunca seja erdeira na Oliveira nem
em estes herdamentos de usso ditos." No reinado de D. Manuel pertencia ao fidalgo Martim Afonso de
Melo de Miranda e era seu administrador Henrique da Mota, que nela recebeu algumas vezes os infantes
D. Henrique e D. Duarte. Em meados do século XIX o edifício sofreu obras de ampliação, que não
chegaram a ser concluidas, pelo que actualmente se encontra num estado muito ruinoso. Subsistiram do
primitivo solar alguns portados de granito, cunhais de cantaria, lavrados, escadas exteriores e várias salas
do rés-do-chão. A capela está ligada a este solar, tem planta rectangular e foi completamente renovada em
finais do século XVIII. Túlio Espanca, Op. Cit., pp.96-98.

(5) "As vastas propriedades deste nome, designadas originariamente por Pinheiros de Santarém [...]",
pertenceram durante séculos aos Morgados Cordovis, família de apelidos Barbosa Aborim da Gama Lobo
de Brito, em cuja posse entraram em 1615 por compra feita por Diogo de Brito ao Bispo do Algarve e
Reitor da Universidade de Coimbra, D. Fernão Martins Mascarenhas, futuro Inquisidor Geral do Reino. A
capela sofreu obras muito significativas, nada restando de outros tempos.

(6) Ermida de S. Romão: situada na região denominada "a Valeira" na herdade de Vale de El-Rei de Cima,
na qual, nos finais do século XV o fidalgo Gil Gonçalves Magro instituiu um morgadio. Em 1776 estava
na posse de D. Miguel de Melo e de D. Manuel Vieira Teles, descendentes do instituidor, com partes
aforadas aos conventos de S. Domingos e do Paraíso. Actualmente, encontra-se em total ruína.

(7) Solar da Sempre Noiva: construção de finais do séclo XV, considerada pelos estudiosos de arte como
um dos mais representativos e notáveis exemplares de arquitectura civil do manuelino-mudejar. A capela
foi secularizada. As terras desta herdade pertenceram desde o reinado de D. Dinis à família eborense
Drago, sendo escambadas em tempo de D. Afonso V entre o Bispo D. Afonso de Portugal e Manuel
Drago, por um morgadio no Algarve. Foi D. Beatriz, filha daquele bispo eborense quem instituiu o
morgadio da Sempre-Noiva, na quinta e passal de herdamento e seu vínculo na pessoa do irmão
primogénito D. Francisco, 1º. Conde de Vimioso. Apesar de se tratar de um edificio classificado como
Monumento Nacional, encontra-se muito arruinado, e as dependências do r/c a servir de estrebaria.
Muitos escritores e artistas deixaram-nos as suas impressões sobre este monumento, como Teófilo Braga,
Gabriel Pereira, Alberto Haupt, Reinaldo dos Santos, entre outros.
Não se conhece a origem deste topónimo, porém há quem defenda ser uma alusão a D. Deatriz de
Portugal ou ser a corrupção do nome de uma planta denominada centinodia, que abunda por estes sítios
(Gabriel Pereira, Serões, nº. 5, Vol. I, p. 199, nota 1).

(8) Trata-se do Aqueduto da Água da Prata, mandado construir (ou reconstruir, sob o traçado de um antigo
aqueduto romano) por D. João III, cuja inauguração ocorreu na tarde de 28 de Março de 1537.





Transcrição: Maria Ludovina Grilo
Revisão: Francisco Segurado


GRILO, Maria Ludovina B. – O Concelho de Évora nas Memórias Paroquiais de 1758
(I Parte). A Cidade de Évora. Évora: Câmara Municipal. 1ª Serie, nº 71 (1988), p. 187-
212.

Actualizado em Segunda, 21 Fevereiro 2011 22:24  


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